Quando ouço falar em violência doméstica ― tema tão caro nos dias que correm, juntamente com o “casamento” gay e a eutanásia ― lembro-me do célebre quadro atribuído a Pinto da Costa, “A Mão da Providência”.
Naturalmente que se parte sempre do princípio de que a mulher retratada é um ser com muito mais sensibilidade do que qualquer homem, senhora de tanta delicadeza que se sente a necessidade de a proteger de tudo o que seja rude, lúbrico ou sexual. O estereotipo burguês que preside ao julgamento de caracteres é o do homem duro e mulher terna, e quando esta é mãe, ela é então automaticamente dessexualizada, o que a transforma numa santa porque quando ela não é santa então é puta. Quando ela é puta, tudo se faz para que seja santa, e vice-versa.
Quem actua ― o homem, e sempre o homem ― torna-se culpado; quem não pode agir mas apenas sente ― a mulher, e só a mulher ― é inocente. A actuação é de exclusividade masculina e o sentimento é coisa de mulheres. Os homens não sentem e por isso agridem. E assim se vai formando o novo estereotipo cultural, baseado num outro com mais de um século retratado no romance de Dumas, “A Dama das Camélias”: a mulher de coração de oiro e anoréctica, dependente do homem, que é libertada do seu sofrimento através de uma morte capaz de fazer chorar as pedras da calçada (e de dar um nome a uma rua da cidade de Coimbra). A diferença entre a cultura d’ “A Dama das Camélias” e a cultura da crítica à “Mão da Providência” é que se acrescenta a esta última a demonização do macho introduzida pelo marxismo cultural (ou politicamente correcto).
A violência doméstica nunca será atenuada na sua forma mais violenta ― a que conduz à morte ― enquanto esta dicotomia cultural que estigmatiza e demoniza “o culpado” e beatifica “a inocente” não for encarada de forma mais racional.
O assassínio doméstico é-nos apresentado basicamente pelo politicamente correcto como um acto espontâneo e sem história, desligado de qualquer nexo causal senão aquele que confere ao macho o estatuto de “animal irracional”. Mesmo que isto não seja dito explicitamente, está implícito em tudo o que se diz: faz parte da nova cultura que se pretende impor. Ora, a “nova cultura” vai dar em nada senão o de pretender justificar a intervenção de um Estado totalitarizante em relação à privacidade da família. O que está aqui em causa é a necessidade política de atomização da sociedade através do controlo da família nuclear, para que se possa instaurar um totalitarismo doce e indolor.
A racionalidade passou a ser apanágio exclusivista do feminino. O politicamente correcto diz que “a violência feminina é assertiva” (1), isto é, inteligente e racional, porque é essencialmente psicológica. Passou a existir a “boa violência doméstica” e a “má violência doméstica”. A primeira é feminina e a segunda é masculina.
A mulher passou a ser mais inteligente do que o homem: ela não bate, antes insulta sistematicamente, e por isso estamos em presença de uma “violência feminina benigna e assertiva”. Em função disto, diz o politicamente correcto que a violência física ― que diz ser exclusiva do homem, e quando não diz, faz de conta que diz ― é desprovida de qualquer nexo causal que a possa justificar; a única razão para ela é a natureza do macho, que é uma besta.
Mas quando confrontamos o politicamente correcto com o facto de a violência doméstica ser muitíssimo mais exacerbada e acentuada (em termos relativos, obviamente) entre duplas de homossexuais (sejam gays ou lésbicas) do que entre os casais naturais (heterossexuais), o politicamente correcto claudica, engasga-se e tenta mudar de assunto. E é então que lhe aplicamos o golpe de misericórdia: mencionamos o facto de uma grande percentagem da violência doméstica ser exercida pela mulher em relação às crianças. É aqui que o politicamente correcto nos diz que está um esplendoroso dia de sol e “abala, que se faz tarde”.
(1) Ouvido por mim num programa da rádio mais “pimba” de Portugal (RCP), e a frase foi proferida por uma mulher, inspectora da Polícia Judiciária.




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Infelizmente preciso concordar contigo. A violência doméstica feminina extensiva às crianças é fato. Não é de agora. Em muitas famílias ouvimos que existem pais que olham e mães que batem. Ou seja, existe a violência compartilhada. Não existem inocentes na violência doméstica repetida. “Onde existe um dominador existe alguém querendo e permitindo ser dominado” -AT, e não fui eu quem criou esta afirmativa. Claro que aqui não são incluídas as crianças. Ouço relatos de famílias molestadas por um dos conjuges, e nem sempre o molestador é masculino, e o que mantem essa família nesse pacto doente, normalmente, é algum privilégio, algum ganho.
Comentário por delfinaguimaraes — Sexta-feira, 13 Março 2009 @ 5:21 pm
E é então que lhe aplicamos o golpe de misericórdia: mencionamos o facto de uma grande percentagem da violência doméstica ser exercida pela mulher em relação às crianças.
O raio da verdade! Sempre a encalhar com o politicamente correcto.
Bah! Era tudo muito mais simples se não existissem estes viciados em pensar.
Caramba! Não bastava já a violência do Bayern sobre o Sporting…
Comentário por zedeportugal — Sexta-feira, 13 Março 2009 @ 9:15 pm
Exposição clara e incisiva. A mesma lucidez e inteligência a que já estamos habituados. Não nos renderemos à maioria…
Comentário por Henrique — Sábado, 14 Março 2009 @ 6:14 am
Por certo na origem da violência doméstica encontram-se causas e motivações de natureza muito diversa; mas há um aspecto, raramente aflorado, que em minha opinião a ela está ligado e que gostava de aqui referir: Enquanto o sentimentalismo e o amor romântico forem privilegiados como o cimento da relação amorosa em detrimento da igualdade e do companheirismo, teremos mulheres doces e submissas e homens rudes e enérgicos, estando criado todo um caldo cultural que lhe é extremamente favorável.
Comentário por adília — Sexta-feira, 27 Março 2009 @ 11:02 pm