perspectivas

Quarta-feira, 11 Março 2009

Dúvida existencial

Arquivado em: aborto — O. Braga @ 4:07 pm

Eu não conheço o Direito Canónico, e por isso agradeço que alguém me tire uma dúvida. A pergunta que faço é a seguinte:


Segundo o Direito Canónico da Igreja Católica: no caso de uma mulher que engravide, e depois de ela ter engravidado venha a ter conhecimento médico de que, se continuar com a gravidez, tem uma alta probabilidade de morrer no processo de gravidez, deve a mulher levar a gravidez até ao fim?

Isto é: será que a Igreja Católica defende a ideia de que uma mulher que se encontre numa situação de gravidez de alto risco, deve-se deixar suicidar para que a criança nasça?

Agradeço antecipadamente a vossa explicação.

Adenda:

Este texto de Olavo de Carvalho reproduz a angústia de uma Igreja Católica que hesita entre o bom-senso e a correcta interpretação da ética cristã ― que tem uma hierarquia de valores ―, e a necessidade de combater fundamental e ideologicamente a decadência moral e ética de uma sociedade que recorre ao abortismo como forma de reduzir o valor da vida humana.

Como a ciência evoluiu ao ponto de saber que a menina de 9 anos estava grávida de gémeos, a ciência é boa porque permitiu saber que “o aborto trocou duas vidas por uma”; quando a mesma ciência prevê que a gravidez da menina de 9 anos poria em risco a sua própria vida, essa ciência já não é boa porque assume uma previsão que poderia não se realizar. Isto é, a ciência é boa nuns casos e já não é boa noutros.

Continuo à espera que alguém documentado me responda à pergunta supracitada.

Adenda 2:

A Igreja Católica não pode criticar a ciência e ao mesmo tempo basear-se nesta para fazer valer os seus pontos de vista. Este tipo de estratégia é mais própria da mente de revolucionária do que da ICAR.

(…) toda gestação gemelar e toda gestação em adolescente é considerada de alto risco. No caso em apreço (idade materna de 9 anos), de adolescente em idade fértil (pois ovulou e engravidou), não existe, nem de longe, a condição exigível para a prática do aborto, nem sob o ponto de vista médico nem jurídico: iminente risco de vida materna em decorrência do estado gravídico. Havia apenas uma gestação de alto risco (risco bem menor do que o de gestantes com patologias graves), que se bem conduzida não traria conseqüências danosas à mãe e aos conceptos.

Aqui, um médico reconhece que “havia uma gestação de alto risco”. Que eu saiba, “alto risco” significa que a vida da mãe está num grau de risco elevado, isto é, a mãe corre o risco de vida apesar da evolução da ciência e da técnica.

Adenda 3

Em artigo no Osservatore Romano, jornal do Vaticano, o presidente da Academia Pontifícia para a Vida, o cardeal Rino Fisichella, um dos mais próximos conselheiros do papa Bento XVI, escreve sobre o anúncio de excomunhão da equipe médica que praticou o aborto na menina pernambucana de 9 anos e 35 quilos, grávida de gêmeos, depois de ser estuprada pelo padrasto. “São outros que merecem a excomunhão e nosso perdão, não os que lhe permitiram viver e a ajudarão a recuperar a esperança e a confiança, apesar da presença do mal e da maldade de muitos”, diz ele.

O cardeal Fisichela maior autoridade eclesiástica em bioética diz que o Arcebispo Metropolitano de Recife e Olinda, dom Jose Cardoso Sobrinho (entrevistado da jornalista Juliana Linhares na edição de VEJA esta semana), colocou em risco a credibilidade da Igreja. “Era mais urgente salvaguardar a vida inocente e trazê-la para um nível de humanidade, coisa em que nós, homens de igreja, devemos ser mestres. Assim não foi e infelizmente a credibilidade de nosso ensinamento está em risco, pois parece insensível e sem misericórdia.”

Segundo o cardeal, a equipe médica merece respeito por agir de forma profissional em uma situação delicada: “É uma decisão difícil para os médicos e para a própria lei moral. Não é possível dar parecer negativo sem considerar que a escolha de salvar uma vida, sabendo que se coloca em risco uma outra, nunca é fácil. Ninguém chega a uma decisão dessas facilmente, é injusto e ofensivo somente pensar nisso.”

9 Comentários »

  1. Estou para confirmar com uma fonte segura (um padre), mas acredito que isto esteja correto:

    http://oindividuo.com/2009/03/10/o-despertar-da-primavera/

    Talvez você esteja se referindo a esse mesmo caso que cá no Brasil aconteceu, não?

    Comentário por eduardo — Quarta-feira, 11 Março 2009 @ 5:43 pm

  2. o que vc acha?

    Comentário por eduardo — Quarta-feira, 11 Março 2009 @ 7:27 pm

  3. Ninguém, em seu pleno juízo ou poder discricionário, tem a verdade sobre esta caso vertido no post.
    Seja quem fôr e de que justiça ou religião seja.
    Entendo, no meu caso, que a Mãe tem personalidade jurídica, poderá ter outros filhos, tem uma vida construída e é útil para a sociedade. O nascituro – que, eventualmente, também poderá falecer – ainda não tem direitos. No caso português – que permite o aborto, tal como a lei o consagra – o concepturo não tem quaisquer direitos.
    Probabilidades perante a hipótese de morte de um ser humano?
    Mas há alguém que determine, advinhe o conceba que é a Mãe que vai falecer e o nascituro sobreviver?

    Comentário por Karlos Kellog — Quinta-feira, 12 Março 2009 @ 10:52 am

  4. Eduardo: eu não acho nada antes de saber o que é que a Igreja Católica definiu no seu Direito Canónico sobre este assunto, uma vez que o que causou a polémica toda foi a posição do Bispo.

    Comentário por O. Braga — Quinta-feira, 12 Março 2009 @ 2:10 pm

  5. Orlando:

    Aconselho-o a dar uma vista de olhos ao Código de Direito Canónico, designadamente Cânones 1041 e 1398 e ainda o Catecismo da Igreja Católica 2274, 2258 e 2262 e ss.

    Parece-me que a resposta à sua pergunta, na óptica da Igreja Católica, é só uma: o aborto é sempre condenável, visto que um feto nunca pode ser considerado um agressor para a mãe (Cfr. CIC 2274).

    Comentário por Victor Rosa de Freitas — Quinta-feira, 12 Março 2009 @ 8:13 pm

  6. A única razão que, na minha opinião, pode justificar o aborto, é quando se salva a vida da mãe. Eu nem sequer coloco em causa o aborto eugénico que pretende “eugenizar” a raça humana — mas no caso de se salvar a vida da mãe, acho que se trata de um imperativo de consciência. Se a Igreja Católica não contempla este caso único, eu não fico à espera da excomunhão: eu auto-excomungo-me. Desde já me declaro não-católico.

    Uma coisa é combater a irracionalidade do aborto; outra coisa é assumir a irracionalidade nessa luta. Recuso-me a isso.

    Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 13 Março 2009 @ 2:45 pm

  7. Eu, que me considero filha de Deus, nascida católica mas aberta a qualquer religião, me pergunto quando a racionalidade vai abrir caminho através da religião e olhar os fatos tais como se apresentam? Não à luz de religião alguma, mas à luz da humanidade. Como questionar se os médicos agiram certo? Acaso uma criança de 9 anos, pesando 33 quilos, vivendo uma vida miserável tem condições, quaisquer condições, de se tornar mãe? Por acaso alguém considera a possibilidade de uma criança de 9 anos ter consciência do risco que corria quando engravidou ou ter impedido o que aconteceu? Que igreja é essa que condena quem salva e absolve quem corrompe, quem tira a possibilidade da mesma criança poder viver uma vida normal? Eu me arrependo, recebo uma penitência de uma centena de pai-nossos e continuo a vida. Quem salva a vida de uma criança merece a excomunhão? Alguém consegue criar na sua imaginação uma menina de pouco mais de um metro de altura, pesando 33 quilos, com uma barriga dilatada por gravidez de gémeos? Não é difícil..ou é? Eu, infelizmente nem preciso imaginar. Já vi algumas, não de gémeos, e posso garantir que não é uma visão agradável.

    Comentário por Delfina — Sexta-feira, 13 Março 2009 @ 3:44 pm

  8. Perguntei a um sacerdote, e o que ele falou foi o seguinte:

    -matar uma vida inocente é errado em qualquer circuntância, e ponto.

    Para esse caso específico, e em casos de risco para a mãe, ele disse que uma saída seria conduzir a gravidez para um ponto seguro para a mãe e onde haja chance de sobrevivência para as crianças de, por exemplo, 50 a 60%, e realizar uma cesariana antes dos 9 meses. Assim, há chance para ambos. E como o perigo de vida para a mãe costuma ser na fase final e no nascimento da criança completamente formada…

    Comentário por eduardo — Segunda-feira, 16 Março 2009 @ 6:16 pm

  9. Eduardo: ou a equipa médica — que assistiu a criança de 9 anos grávida de gémeos — mentiu quando falou em “risco de vida” para a menina, ou disse a verdade. Não compete a um padre, a mim, ou ao Eduardo, dizer que sabemos mais sobre o assunto do que essa equipa de médicos; compete-nos, eventualmente, saber se essa equipa de médicos disse a verdade ou não.

    Nós sabemos que ainda hoje — na Europa — existem mães que morrem ao dar à luz. Não é justo que em nome de um fundamentalismo, defendamos a ideia de que podemos trocar a vida da mãe pelos filhos, correndo o risco de ninguém se salvar.

    Comentário por O. Braga — Segunda-feira, 16 Março 2009 @ 7:12 pm


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