perspectivas

Quarta-feira, 18 Fevereiro 2009

A farsa ideológica do Bloco de Esquerda

A alternativa a este estado de coisas é o conservadorismo, e não o liberalismo de direita que só diverge do Bloco por não ser igualitarista. É necessário um partido conservador forte em Portugal; e na minha opinião, esse partido não existe.

Em praticamente todas as empresas, há um organigrama oficial e um organigrama real que não coincidem. O mesmo acontece na política, mas no caso do Bloco de Esquerda (BE) a discrepância entre o ideário (programa do partido) e as práticas (discurso) confunde os portugueses. O BE é um partido que defende simultaneamente o colectivismo neomarxista e o individualismo próprio de um determinado tipo de liberalismo. As coisas não batem certo, e parece-me que o BE “joga em dois carrinhos” ― aliás, como bons marxistas jogam na dialéctica: se falhar uma via, há sempre a outra disponível. Contudo, faz muita falta ao povo saber qual das duas ideologias é a que corresponde ao “organigrama real” do Bloco.

Ao ouvir o Daniel Oliveira anteontem no programa da Fatinha, ele pareceu-me um liberal que defende acerrimamente o individualismo sócio-cultural inserido num Estado-providência. Porém, ao ouvir Francisco Louçã, tenho a percepção de um neomarxista na área económica e de um liberal na área cultural e social. O problema é que os dois conceitos ― neomarxismo e o chamado egalitarian liberalism ― são incompatíveis em termos práticos, embora possam parecer conciliáveis em teoria, isto é, “não bate a bota com a perdigota”.

Penso que o individualismo liberal do Bloco é um ardil político e não a essência da ideologia do partido. O Bloco de Esquerda vive uma farsa no sentido em que “doura a pílula” do seu totalitarismo intrínseco que permanece preponderante no seu ideário político, utilizando o isco de um anarco-individualismo. Segundo os cânones marxistas, o anarco-individualismo é a primeira fase do assalto ao Poder, a que se segue o estabelecimento de uma ordem totalitária (a chamada “normalização”). Mas não é só o BE que apresenta esta contradição: o partido comunista parece estar a querer aprender com o Bloco.

Esta contradição do Bloco é mais gritante no que respeita ao seu relacionamento com as “comunidades” existentes na sociedade civil, nomeadamente, a família. Ao mesmo tempo que o Bloco de Esquerda não parece ser a favor da economia de mercado (pelo menos como um fim em si mesma), concebe a família baseando-se no modelo de mercado, o que é um absurdo. Mais, o BE diz defender a “solidariedade comunitária” ao mesmo tempo que, utilizando um discurso anarco-individualista, destrói essa mesma solidariedade comunitária ― nomeadamente a instituição da família ― nas suas raízes mais profundas.

O neoliberal típico vê as comunidades ― como a família ― como “colecções de indivíduos” que se unem temporariamente por razões de conveniência mútua e tendo como bem supremo o indivíduo e o individualismo, o que vai contra um princípio de ordem colectivista próprio de um partido neomarxista (depois da revolução soviética, Estaline fez questão de “estabilizar” a instituição da família). Posso estar a ver mal a questão, mas parece-me que existe uma contradição insanável no discurso do Bloco de Esquerda.

Uma coisa é certa: a exaltação (levada até ao absurdo) da autonomia individual ― proclamada pelo Bloco de Esquerda, e na medida em que essa autonomia individual exacerbada é simultaneamente igualitarista ―, ela é tão destrutiva para as instituições intermediárias da sociedade civil como é o marxismo. O individualismo aliado ao igualitarismo encurralam a sociedade civil e as suas instituições entre a soberania individual e a soberania estatal.

Ainda assim, se partirmos do princípio de que o Bloco de Esquerda é a favor da economia de mercado em constante expansão (o que eu duvido), o Bloco está ― pelo menos indirectamente ― a contribuir decisivamente para o enfraquecimento da sociedade civil, porque quando os diversos tipos de comunidade presentes na sociedade civil enfraquecem face ao impacto negativo que o mercado em eterna expansão e o individualismo exacerbado têm sobre eles, as patologias sociais ganham terreno fértil para grassar, aumenta necessariamente o poder de intervenção do Estado, e o totalitarismo acabará, mais tarde ou mais cedo, por ganhar um estatuto de necessidade legítima.

De uma maneira e/ou de outra, os bloquistas vão “levando a água ao seu moinho” ― e aqui temos a dialéctica marxista a funcionar a todo o vapor.

A alternativa a este estado de coisas é o conservadorismo, e não o liberalismo de direita que (aparentemente) só diverge do Bloco por não ser igualitarista. É necessário um partido conservador forte em Portugal; e na minha opinião, esse partido não existe.

1 Comentário »

  1. A geração dos recibos verdes: p.f. assinem e divulguem a petição apontada aqui:

    http://umjardimnodeserto.nireblog.com/post/2009/02/19/trabalhadores-descartaveis-nafo

    Sim, eu sei a pouca eficácia que a maior parte das petições têm tido, mas tantas vezes vai o cântaro à fonte…

    Abraço.

    PS: Ah! Tive o cuidado de ir ver quem autoria a petição e não é o BE.

    Comment por zedeportugal — Quinta-Feira, 19 Fevereiro 2009 @ 3:35 pm


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