Se (em nome de uma ideia utilitarista da ética) o absoluto dos valores não existe, isto é, se os valores morais são relativos ― como dizem os relativistas morais para justificar o seu utilitarismo exacerbado ―, ninguém pode, por isso, absolutamente declarar que o absoluto não existe.
No postal sobre Bentham referi que ele é o pai do socialismo totalitário ― em oposição ao socialismo romântico saído da Revolução Francesa ―, mas não falei numa outra escola filosófica que derivou do utilitarismo de Bentham: o darwinismo. Assim, o sistema utilitarista gerou dois sistemas mais importantes: o socialismo e o darwinismo. Por isso, podemos dizer com pertinência que tanto o darwinismo como o socialismo têm uma fundação utilitarista. Podemos dizer que o socialismo totalitário nasceu em Inglaterra, com o Benthamismo, embora mais tarde Karl Marx tenha sistematizado em teoria antropológica os princípios filosóficos que desde o início do século 19 circulavam entre os benthamistas.
Thomas Malthus foi um benthamista publicamente assumido. Ricardo esteve na base do socialismo e foi outro benthamista assumido. Ricardo escreveu os “Princípios de Economia Política e de Impostos”, que se tornou a bíblia económica dos utilitaristas. O socialismo sem liberdade começou no apogeu do benthamismo, resultado da reacção contra a denominada “economia ortodoxa”.
A “economia ortodoxa” é a súmula do liberalismo do século 18 e 19, que nos chegou com a Revolução Industrial, e que defende a “competição livre” embora controlada por meio de restrições legais ― por exemplo, podemos bater um competidor nos preços de mercado, mas não podemos matá-lo; não devemos usar as forças armadas para combater os competidores estrangeiros; os que não possuem capital não devem tentar melhorar a sua parte através da revolução; etc. Portanto, embora a competição livre da “economia ortodoxa” (ou liberalismo) tivesse restrições estabelecidas por lei, os utilitaristas socialistas colocaram em questão a liberdade de competição na sociedade, baseando-se nos princípios de Bentham de maior prazer possível em função da mínima pena possível.
Ricardo ensinou que o valor de um produto se deve inteiramente ao trabalho gasto em produzi-lo. O primeiro manifesto comunista de sempre foi publicado em 1826 por um benthamista de nome Thomas Hodgskin, com o título “Labour Defended Against Claims of Capital”. Hodgskin afirmou no seu manifesto que todo o valor é conferido pelo trabalho e todo o lucro deve pertencer ao trabalho, e que a parte obtida pelo proprietário é uma mera extorsão. Naturalmente que Ricardo não teve em consideração o risco do investimento.
Outro benthamista foi Robert Owen, um industrial inglês que se converteu ao socialismo utilitarista mas que não deixou de continuar a viver como um capitalista, e nem ofereceu as suas fábricas aos seus trabalhadores. Robert Owen utilizou, pela primeira vez na História, o termo “socialista”, num artigo publicado em 1827. Segundo Owen, a maquinaria estava a desalojar o trabalho, e o laissez-faire impedia as classes trabalhadoras de combater o “poder mecânico” (hoje temos o fenómeno da deslocalização das empresas num mundo globalizado). O método que Owen propunha para combater o “mal” foi a primeira forma de socialismo moderno.
Embora os socialistas utilitaristas ingleses do início do século XIX se tivessem baseado nas ideias de Bentham, este não aprovava as ideias dos socialistas. Bentham compreendeu que a sua filosofia tinha criado um monstro político ― parafraseando Goya, “o sonho da Razão” tinha criado um monstro. O objectivo de Bentham era o de converter a moralidade numa ciência exacta, retirando-a do âmbito da religiosidade humana, objectivo esse que permanece até hoje sem a sua realização efectiva, apesar dos avanços da ciência e da técnica. Baseando-se no cálculo da relação entre o prazer e a dor, a “ciência” da moral utilitarista pretende tornar-se tão exacta como a matemática, transformando o ser humano num robô ou num animal irracional. Bentham reduz o ser humano a um ser condicionado pelo reflexo de Pavlov ― teoria que o próprio Bentham elaborou, numa forma rudimentar, antes ao russo.
Outro monstro que nasceu do benthamismo foi o darwinismo como filosofia política e económica (darwinismo social). O darwinismo é a aplicação ao conjunto da vida animal e vegetal, da teoria da população de Malthus, que por sua vez é parte integral da política e da economia dos benthamistas ― a livre competição global, em que a vitória é para os animais que mais se parecem com bem sucedidos capitalistas. A competição darwiniana é diferente da competição da “economia ortodoxa”: vale tudo, até arrancar olhos. Não há lei entre os animais, nem a guerra se exclui do método competitivo. O utilitarismo de Bentham é levado aqui ao seu extremo: o uso do Estado para assegurar a vitória na competição, que era condenado pelos benthamistas, não se exclui da lista de métodos de luta dos darwinistas. Porém, a ideia darwinista da “sobrevivência dos mais aptos” está mais próxima de Nietszche do que de Bentham, e o que liga o darwinismo ao benthamismo é a teoria da população de Malthus que é utilitarista por excelência.
Como vimos, a partir de uma ideia de Bentham de separação da ética da religiosidade humana, criou-se uma rede intrincada de teorias que, em algumas áreas, se interligam e se influenciam mutuamente. Porém, o utilitarismo de Bentham está na origem de todas essas teorias.
Naturalmente que o relativismo moral contemporâneo tem raízes profundas no utilitarismo de Bentham, porque o máximo prazer para a maior parte da população acaba por exigir, no limite, um laxismo na lei moral, de forma a acomodar na sociedade todos os comportamentos possíveis e imaginários. Contudo, é surpreendente que não nos tenhamos dado conta ― como referi aqui ― de que o utilitarismo ― e consequentemente, o relativismo moral ― se baseia num erro de análise, porque o prazer é consequência do desejo, e não o contrário. Um masoquista pode desejar o sofrimento, isto é, o seu prazer deriva da pena que ele desejou, e por isso a verdade é que o seu prazer (que é o sofrimento) é por causa do desejo, e não vice-versa.
A tentativa (não passa de uma tentativa) de cientificação da ética e da moral está a transformar o ser humano num ser irracional, o que é o maior paradoxo humano desde sempre. Por exemplo, o Transumanismo é o exacerbar contemporâneo da ideia utilitarista da ética como resultado de uma ciência exacta.
O relativismo moral utilitarista serve os interesses de uma elite dominante, que decorre da elite preconizada por Bentham: não foi por acaso que o pai do utilitarismo socializante e totalitário desprezava a liberdade. Quanto mais se expande a ideia utilitarista da ética e da moral, mais escravizada e controlada estará a humanidade. A ideia de “liberdade” ― que Bentham desprezava ― implica uma moral objectiva que está acima de governantes e de governados. A subjectividade aplicada aos valores, em nome do utilitarismo de Bentham, é contrária à ideia de democracia, o que significa que o relativismo moral coloca o utilitarismo ao serviço de um totalitarismo que estratifica a sociedade em super-homens e escravos.
Se (em nome de uma ideia utilitarista da ética) o absoluto dos valores não existe, isto é, se os valores morais são relativos ― como dizem os relativistas morais para justificar o seu utilitarismo exacerbado ―, ninguém pode, por isso, absolutamente declarar que o absoluto não existe.
Confundir justiça social, que é opção positiva da razão humana, com a ideia utilitarista de uma inevitabilidade científica que rege a ética, é retirar ao Homem o livre arbítrio, e por mais que a injustiça social seja negativa, pior será transformar o ser humano num animal irracional escravizado em nome de um alegado combate à injustiça social. Por isso, é necessário um novo Renascimento na Europa, que nos traga os valores da ética cristã adequados e adaptados ao tempo em que vivemos.




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