perspectivas

Sexta-feira, 3 Outubro 2008

A lógica de Aristóteles

Filed under: filosofia,Ut Edita — orlando braga @ 3:58 pm
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Silogismo de facto raciocinado

*Todos os deputados com um arquétipo mental totalitário são pessoas psicologicamente recalcadas;
*Todos os deputados do Bloco de Esquerda são deputados com um arquétipo mental totalitário;
logo, → *Todos os deputados do Bloco de Esquerda são pessoas psicologicamente recalcadas.


As premissas do “silogismo de facto raciocinado” estabelecem a causa do facto de os deputados do Bloco de Esquerda não serem pessoas psicologicamente equilibradas. :smile:

Aristóteles foi o primeiro filósofo (que se conheça) a falar em “filosofia da ciência” e na dupla condição da “indução e dedução” inerente à lógica. Segundo Aristóteles, o Homem induz princípios gerais e, depois, deduz afirmações sobre os fenómenos que observa empiricamente a partir de premissas que incluam esses princípios gerais ― primeiro induz, e depois deduz.

Por exemplo: quando observa um eclipse lunar, o Homem constata o escurecimento progressivo da superfície lunar (observação directa e empírica). Em função desta observação directa, o Homem induz “princípios gerais”: a luz propaga-se em linha recta; os corpos opacos produzem sombras; dois corpos opacos na proximidade de um corpo luminoso coloca um dos corpos opacos na sombra do outro; etc. Estes “princípios gerais” são, também eles, oriundos da observação empírica.
A partir destes princípios gerais, o Homem deduz afirmações sobre o fenómeno, deduções essas que são indemonstráveis empiricamente.

Aristóteles instituiu dois tipos de “indução”: a “simples enumeração” e a “intuição directa”.

A “simples enumeração” parte de “premissas” para chegar a uma “conclusão”, e utiliza a generalização dos princípios aplicáveis.

Por exemplo: determinado comportamento que se observa num grupo sócio-cultural é comum a vários membros desse grupo; logo, generalizando, induz-se ser verdadeira a conclusão sobre as características do grupo sócio-cultural à qual pertencem esses indivíduos.

Y1 = Z; Y2 = Z; Y3 = Z → Y = Z

A “intuição directa” é uma forma de indução baseada na experiência adquirida pelo observador. Por exemplo, um pescador experimentado induz sobre as condições do mar antes de sair para a pesca, coisa que um pescador inexperiente não pode fazer.

A partir das generalizações produzidas pelo processo indutivo, encontram-se as premissas que permitirão a dedução de afirmações acerca das observações empíricas. Portanto, sob o ponto de vista científico, a generalização é sempre positiva.


A dedução tem uma lógica de “inclusão” e “exclusão” ― embora Aristóteles privilegie o “princípio do terceiro excluído”.

(Todo) Y = Z
(Nenhum) Y ≠ Z
(Algum) Y1; Y2; = Z
(Algum) Y1; Y2 ≠ Z

Contudo, é a primeira afirmação que Aristóteles privilegia: Y = Z ― porque esta proposição reproduz a total inclusão lógica de um fenómeno. Corroborando este princípio, Aristóteles citou o “silogismo em Barbara” como paradigma da demonstração lógica:

(Todo) Y = Z; A = Y; → A = Z

O silogismo apresenta o “termo maior” Z (que é citado duas vezes nas conclusões), o “termo médio” Y (que é citado uma vez na premissa e uma vez na conclusão) e o termo menor A (porque é citado duas vezes nas premissas).

Por exemplo:

todos os corpos vizinhos da Terra são corpos com brilho fixo;
todos os planetas do sistema solar são corpos vizinhos da Terra; logo,
todos os planetas do sistema solar são corpos de brilho fixo.

Como vemos, o Sol foi excluído do silogismo, o que não significa que a conclusão e as premissas não estejam correctas. Assim, através da dedução, o Homem avança do conhecimento empírico de um facto sobre planetas para a compreensão da causa desse facto.
Por vezes, um silogismo pode ter uma conclusão correcta a partir de uma premissa falsa. Por exemplo:

todas as estrelas são corpos com brilho fixo;
todos os planetas do sistema solar são estrelas;logo;
→ todos os planetas do sistema solar são corpos com brilho fixo.

Portanto, é sempre necessário que as premissas sejam verdadeiras, e esta exigência é uma das quatro “exigências extralógicas” de Aristóteles. As outras três exigências são:

  • As premissas devem ser indemonstráveis [empiricamente], isto é, devem existir alguns princípios que não se podem deduzir de outros princípios mais básicos [empíricos]. Existem, assim, alguns princípios indemonstráveis que são necessários para que se evite um infinito retorno nas explanações. Por isso, nem todo o conhecimento [científico] é passível de ser demonstrado.
  • As premissas devem ser melhor conhecidas que a conclusão, isto é, não podemos adoptar uma lógica de raciocínio que parta do menos conhecido para o mais conhecido.
  • As premissas devem ser as causas da atribuição feita na conclusão, isto é, a conclusão é o efeito que resulta das premissas.

Silogismo de facto raciocinado

Todos os deputados com um arquétipo mental totalitário são pessoas psicologicamente recalcadas;
Todos os deputados do Bloco de Esquerda são deputados com um arquétipo mental totalitário;
→ Todos os deputados do Bloco de Esquerda são pessoas psicologicamente recalcadas.

Silogismo de facto

Todos os deputados com um arquétipo mental totalitário são socialistas;
Todos os deputados do Bloco de Esquerda são deputados com um arquétipo mental totalitário;
→ Todos os deputados do Bloco de Esquerda são socialistas.

As premissas do “silogismo de facto raciocinado” estabelecem a causa do facto de os deputados do Bloco de Esquerda não serem pessoas psicologicamente equilibradas. Pelo contrário, as premissas do “silogismo de facto”, não estabelecem as causas da conclusão do axioma — Aristóteles diria, neste último caso, que a correlação entre o arquétipo mental totalitário e o socialismo é acidental. :smile:

Para distinguir as correlações causais das acidentais, Aristóteles definiu um critério reconhecendo que numa relação causal, o atributo

  1. seja sempre verdade, em qualquer circunstância do sujeito;
  2. seja verdade para o sujeito em causa e não para o todo a que ele pertence;
  3. seja “essencial” ao sujeito.

Descansem os deputados do Bloco de Esquerda porque os critérios de relação causal de Aristóteles deixam muito a desejar, como veremos adiante. :smile:


(este postal continua).

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4 Comentários »

  1. Ena! Não é que dava para compor um tratado de lógica parlamentar aristotélico-socrática…!!!???

    Comentário por Henrique — Sábado, 4 Outubro 2008 @ 4:20 pm | Responder

  2. [...] significa a verificação das causas dos fenómenos por via da indução e dedução (ver lógica de Aristóteles). Para alguém imbuído de um mente científica, é impossível compreender cabalmente a [...]

    Pingback por O que é maçonaria? « Os discípulos de Lúcifer — Quinta-feira, 9 Outubro 2008 @ 7:03 pm | Responder

  3. [...] em construção; entretanto, ler: A lógica de Aristóteles [...]

    Pingback por Sofos: Silogismo — Domingo, 19 Outubro 2008 @ 7:36 pm | Responder

  4. [...] conclusão nunca pode ser verdadeira e a dedução está errada. Por exemplo a seguinte dedução (silogismo) : «Todos os homens são mortais. José é homem. Logo, José é mortal.» Temos que partir do [...]

    Pingback por Para denunciar uma mentira precisamos de muitas palavras « perspectivas — Segunda-feira, 3 Dezembro 2012 @ 6:04 pm | Responder


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