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Domingo, 14 Setembro 2008

Maquiavel: “Liberdade” não é o mesmo que “Libertarismo”

Filed under: filosofia — orlando braga @ 7:02 pm
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Maquiavel

Maquiavel

Ao contrário do que os libertários de direita (como se fosse possível existir um “libertarismo de direita” senão como funcionando na prática como um instrumento político da esquerda marxista; mas enfim, demos por “boa” a designação) dizem, Maquiavel não foi um libertário no seu tempo, no sentido em que se dá hoje ao termo “libertarismo”; o Libertarismo do Renascimento era o “libertinismo” de que falei aqui.

Alguns seguidores ideológicos de Maquiavel terão sido “libertários” (no sentido moderno do termo), isto é, “libertinos”; por exemplo, Botero e Guicciardini.
A exigência de uma renovação política que Maquiavel impunha não é sinónimo automático de “libertarismo”; Maquiavel pretendeu o regresso às origens (da História italiana), o que faz dele um conservador ― porém, não um conservador no sentido tradicionalista, mas um conservador no sentido integral e ideológico.

Maquiavel pretendia renovar o Homem no sentido do retorno às suas origens históricas às quais poderá ir buscar nova força e novo vigor, e por outro lado, significando esse retorno às origens um regresso à base estável e universal de toda a comunidade. Quando um “blasfemo” libertário qualquer invocar Maquiavel para justificar o seu “Libertarismo”, mandem-no à merda porque ele não sabe o que diz.

Maquiavel apoiou toda a sua teoria no historicismo e no jusnaturalismo ― o que vai contra a ideia do Libertarismo do filósofo; um libertário é tudo menos um apoiante do jusnaturalismo, porque introduz a primazia praticamente absoluta do Direito Positivo (direito construído), na peugada de Rousseau, sobre o Direito Natural. A própria reivindicação da necessidade da ausência de leis reguladoras, é construída, não é natural. Segundo Maquiavel ― como grande parte dos filósofos do Renascimento ― o Direito Natural é a base de toda e qualquer comunidade humana e é ditado pela própria Razão.

Nos “Discursos” de Maquiavel, ele explica esse regresso aos princípios como sendo a única maneira pela qual “as comunidades podem renovar-se e fugir assim à decadência e à ruína” (sic). Retornando aos princípios, a comunidade assume a bondade na qual poderá retomar a vitalidade e a força primitivas. Maquiavel chama à atenção para necessidade de convocar os cidadãos para as “virtudes primitivas”, dando como exemplo o caso da religião cristã que se renovou e se fortaleceu graças a homens como S. Francisco e S. Domingos — que retornaram aos princípios do Cristianismo.

Segundo Maquiavel, a liberdade da comunidade é baseada nos “bons costumes” fundacionais aos quais a comunidade deve regressar. Ora, o Libertarismo não faz outra coisa do que colocar sistematicamente em causa o passado histórico de uma comunidade. Se Maquiavel vivesse hoje, não seria libertário.

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4 Comentários »

  1. A não ser que mudasse as suas convicções, o que seria muito difícil. Acredito que a essência não muda, só os traços. Traga-nos mais sobre Maquiavel, quando tiver um tempo. Nem que seja para desmistificar conceitos errôneos que mantemos à custa de leituras erradas.

    Comentário por Delfina — Segunda-feira, 15 Setembro 2008 @ 3:27 pm | Responder

  2. Hola Orlando, no te sabría decir. Lo que si puedo asegurar es que si el padre Mariana volviera a las Españas, sería carlista. Sin embargo, ya ves, le da nombre a un instituto liberal: http://www.juandemariana.org/

    Por si te interesa: http://www.nodulo.org/ec/2008/n077p11.htm

    Saludos

    Comentário por AMDG — Terça-feira, 16 Setembro 2008 @ 6:54 pm | Responder

  3. Não conheço suficientemente o percurso de Juan de Mariana para poder afirmar o que quer que seja, mas posso garantir que Maquiavel não era um libertário — no sentido em que se dá hoje ao conceito. Um libertário, por definição, é um revolucionário que pretende romper com o passado histórico, e que muitas vezes repudia esse passado. Maquiavel defendia exactamente o contrário do Libertarismo, isto é, Maquiavel foi um conservador. Por vezes confunde-se “liberalismo económico” com “libertarismo”, mas essa confusão é propositada.

    O link http://www.nodulo.org/ec/2008/n077p11.htm fala do “Príncipe” como sendo anti-cristão, mas isso é conclusão do autor do artigo e não é o que Maquiavel pensava. Sobre este tema irei fazer um postal complementar a este. Naturalmente que o príncipe é um político, e nenhum político até hoje seguiu à risca o cristianismo (apontem-me um para amostra); acontece que o autor do texto pretende fazer crer implicitamente que alguma vez já terá existido um político que terá seguido o cristianismo à risca, em contraponto e oposição ao príncipe de Maquiavel — o que é intelectualmente desonesto. ===> silogismo : o Príncipe era um político; o Príncipe era anti-cristão; todavia, existem outros príncipes, que sendo políticos, seguem à risca o cristianismo «=== o que não é verdade. Não é possível singrar na politica seguindo Cristo à risca.

    Comentário por O. Braga — Terça-feira, 16 Setembro 2008 @ 8:52 pm | Responder

  4. BOM NÃO ERA O QUE ESTAVA PROCURNDO MAIS LI TUDO E GOSTEI DO CONTEUDO MUITO BEM ELABORADO PARABENS.
    E POR FAVOR NOS TRAGA MAIS SOBRE MAQUIAVEL, QUE ESTAREI SEMPRE AQUI VISITANDO E FAZENDO COMENTARIOS.
    OBRIGADO POR TUDO E ATÉ A PROXIMA.
    TCHAU

    Comentário por Carlos — Quinta-feira, 8 Julho 2010 @ 2:11 pm | Responder


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