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Sexta-feira, 12 Setembro 2008

A Ética segundo S. Tomás de Aquino

Filed under: Religare — orlando braga @ 10:55 pm
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S. Tomás de Aquino

S. Tomás de Aquino

S. Tomás de Aquino separou a teologia da filosofia através do seu sistema tomista. A teologia de Aquino é bastante complexa e por isso seria fastidioso inclui-la num postal generalista. O que mais me atrai em Aquino é a sua filosofia, e desta, a ética e a estética; é disto que vou falar comparando esses conceitos de Aquino com a cultura contemporânea. Antes de entrar no tema, é de notar que Aquino considerava a monarquia como o sistema político ideal, por ser o que mais se parece com o próprio governo divino do mundo. Não podia de fazer notar a minha concordância.

Na sua ética, S. Tomás de Aquino parte do princípio da existência de Deus, porque nenhuma ética é possível sem uma metafísica qualquer; aliás, este é o grande problema ético dos ateístas, e a necessidade da transformação do ateísmo em naturalismo reflecte a necessidade ética de uma “metafísica”, o que na prática significa “religião”.

S. Tomás de Aquino parte da lógica sustentada da liberdade do ser humano ― o livre arbítrio ― o que para mim é ideia agradável. O ser humano é livre; Deus não lhe tolheu a liberdade. O ordenamento finalista do universo não elimina nem diminui a liberdade do Homem.

O Mal e o Bem

O mal é a ausência do bem, isto é, o mal não é substancial. Neste aspecto, S. Tomás de Aquino segue S. Agostinho na teoria da não-substancialidade do mal, em confronto com as ideias de Mani (maniqueísmo). Também esta ideia é-me agradável; o mal não é intrínseco ao ser humano senão na sua condição de ignorância ou ausência de sabedoria, da mesma forma que o mal é a ausência do bem.

S. Tomás de Aquino existem duas espécies de “mal”: a “pena” e a “culpa”. A “pena” tem em Aquino um significado parecido no Budismo com o de Kharma; a “pena” é a deficiência da forma ou de uma das suas partes, necessária para a integridade de algo. A “culpa” é, dos males, o maior ― que a providência tenta corrigir ou eliminar com a “pena”. Para S. Tomás de Aquino, só lhe faltava reconhecer a reencarnação para transformar a “pena” em Kharma e a “culpa” em Samsara.

Para S. Tomás de Aquino, a “culpa” é o acto humano de escolha deliberada do mal; a “culpa” não é inconsciente: o ser humano com culpa sabe que a tem, através da “consciência”. Contudo, o ser humano é dotado de capacidade para distinguir o Bem, e naturalmente tende para ele; assim como o ser humano tem uma aptidão natural para entender os princípios da ciência, essa mesma aptidão serve também para o ser humano entender os princípios práticos dos quais dependem as boas acções. Através da sínderese ― que é exactamente essa aptidão prática que permite ao Homem distinguir o Bem — o ser humano tende a rejeitar a ausência de Bem.

Ao contrário do que defende o naturalismo ateísta contemporâneo, S. Tomás de Aquino distingue a liberdade do ser humano da falta de liberdade do resto da natureza. As potências naturais (as faculdades naturais) não têm possibilidade de escolha nem têm liberdade; agem de um modo constante e infalível como agem os agentes que a Física ou a Química observam. Contudo, as potências racionais podem agir em vários sentidos segundo livre escolha. O habitus, segundo S. Tomás de Aquino, é a predisposição humana que é constante, mas não necessária ou infalível, de escolher em determinado sentido ― o habitus é a tendência de comportamento de um ser humano em particular, em pleno exercício da sua liberdade, ou de uma sociedade determinada, em geral.

S. Tomás de Aquino aceita a distinção aristotélica entre “virtudes intelectuais” e “virtudes morais”, sendo que estas últimas são a justiça, a temperança, a prudência e a fortaleza. As virtudes intelectuais e as virtudes morais são virtudes humanas que conduzem o ser humano à felicidade que o Homem pode conseguir nesta vida com as suas próprias forças naturais. Mas para além destas, o Homem dispõe das “virtudes teologais” directamente infundidas por Deus: a fé, a esperança e a caridade.

A Lei Natural

Em toda a ética de S. Tomás de Aquino está presente o direito natural (jusnaturalismo). Existe uma lei eterna ― uma lei que governa todo o universo e que existe na lógica do surgimento desse universo. A lei natural que existe no Homem é um reflexo (ou uma “participação”) dessa lei eterna que rege o universo.

A lei natural tem três características fundamentais:

  1. A inclinação para o bem natural. A auto-conservação do Homem ― como a de qualquer ser vivo ― é uma revelação desta primeira característica. Por isso, o aborto e o suicídio (eutanásia) vão contra a lei natural.
  2. A inclinação especial para determinados actos, que são os que a natureza ensinou a todos os animais, como a união do macho e da fêmea, a educação dos filhos e outros semelhantes. Por isso, o comportamento e a cultura “gay” vai contra a lei natural.
  3. A inclinação para o Bem segundo a natureza racional que é própria do Homem, como é a inclinação para conhecer a Verdade, a sociabilidade, a cultura, a tradição, etc.

A estética

O belo, segundo S. Tomás de Aquino, é um aspecto ou uma característica do Bem. O belo é idêntico ao Bem, sendo que o Bem é aquilo que todos desejam e, portanto, é a própria teleologia (o Fim). O belo também é desejado, e portanto tem um valor teleológico. Porém, ao contrário do Bem, o belo só se refere aos sentidos (faculdade cognoscitiva) ― visão, audição ― e à consciência das coisas (que inclui outros sentidos: o tacto, o olfacto, o gosto). Portanto, a beleza só se refere aos sentidos que têm maior valor cognoscitivo e que servem a Razão. O que agrada na beleza não é o objecto em si, mas a apreensão do objecto.

S. Tomás de Aquino atribui ao “belo” três características essenciais:

  • A integridade da perfeição. Tudo o que é reduzido ou incompleto é feio.
  • A proporção das partes; a clareza. Esta característica aplica-se não só nas coisas sensíveis (arte em geral) mas também nas coisas do espírito. Um corpo proporcionado é belo assim como um discurso ou uma acção bem proporcionada tem a clareza espiritual da razão.
  • A verdade da beleza. O belo existe mesmo que represente um objecto feio.

S. Tomás de Aquino nasceu de uma família da nobreza italiana (condes de Aquino) em Roccasecca, Cassino, Itália, em 1226. Faleceu a 7 de Março de 1274.

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17 Comentários »

  1. OBRIGADA

    Comentário por TAIANE — Sábado, 13 Setembro 2008 @ 7:08 pm | Responder

  2. Descobri, na Lulu.com, este storefront http://stores.lulu.com/mythictome que vende ebooks a preço baixíssimo e, ao que parece, originais q.b.. Vou comprar a Summa Teologica para experimentar.

    Comentário por Henrique — Domingo, 14 Setembro 2008 @ 5:41 am | Responder

  3. Faltou uma investigação mais detalhada São Tomas de Aquino em seus escritos mais precisamente em Suma Teologica procura desenvolver conceitos da criação-o anjo-o homem.
    perguntas como A imagem de Deus se encontra em todo homem?ele procura legitamar seus discurso em Apostolos,na Biblía e em diversos pensadores religiosos ou não.

    Comentário por Cristiano Terra Menezes — Quinta-feira, 7 Maio 2009 @ 10:19 pm | Responder

  4. @Cristiano:

    Neste postal só quis falar da ética. Foi intencional a circunscrição temática.

    Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 8 Maio 2009 @ 7:59 am | Responder

  5. por ocasiao de um trabalho de faculdade acabei conhecendo este site, que a propósito me agradou muito, mas infelizmente uma dúvida me persegue.
    Ao escreve no quadro sobre o trabalho, meu professor mencionou ”A ética em São TOMÉ de Aquino”… gostaria de saber se o termo está correto ou se meu professor se equivocou quando quis dizer “A ética em São TOMÁS de Aquino”…
    Muito Obrigado!!

    Comentário por Carlos — Domingo, 14 Junho 2009 @ 6:18 pm | Responder

  6. @ Carlos:

    Muito sinceramente, eu não conheço um S. Tomé de Aquino. Conheço um S. Tomé, mas não é de Aquino.

    Comentário por O. Braga — Domingo, 14 Junho 2009 @ 7:29 pm | Responder

  7. Bem gostaria de saber se voçe tem algum conhecimento sobre a suma mas sobre um assunto específico as paixões segundo São Tomás,na verdade volto a dizer que na moral o assunto não está completo a muitos nuances para destrinchar um forte abraço Cris,aluno de filosofia PUC 3 ano

    Comentário por Cristiano Terra Menezes — Sexta-feira, 4 Setembro 2009 @ 1:43 am | Responder

  8. @ Cristiano:

    1.

    Vc refere-se à “Summa Theologiae” ou “Summa Contra Gentiles”?

    2.

    Ética não é a mesma coisa que moral. A ética está para a moral como a musicologia está para a música.

    3.

    A essência da ética de S. Tomás de Aquino ― aquilo que permanece válido ainda hoje ― está aqui neste artigo. Os princípios éticos aqui expostos são racionais e podem até ser aceites por um ateu. Existem conceitos éticos de S. Tomás de Aquino que eram especificamente condicionados pela época em que ele viveu, e dado que a Verdade ― como a ética ― é intemporal, só aquilo que é intemporal na ética de S. Tomás de Aquino foi aqui exposto. Portanto, não falta absolutamente nada senão aquilo que eu considerei que não era intemporal.

    4.

    Com todo o respeito, um estudante de filosofia tem muito que aprender ― desde logo a não cometer erros de ortografia. É essencial dominar a língua materna para poder expor o raciocínio lógico, da mesma forma que o domínio da linguagem formal matemática é necessário a qualquer matemático que se preze.

    Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 4 Setembro 2009 @ 8:42 am | Responder

  9. [...] Fonte: Expectivas [...]

    Pingback por O belo, segundo Santo Tomás de Aquino « Maria Rosa — Sexta-feira, 11 Setembro 2009 @ 3:27 pm | Responder

  10. Nossa ficaste ofendido….mesmo, agradeço sua crítica me esforçarei!!!espero que nunca pare de aprender,pois aquele que já sabe tudo se torna prepotente ,pensa que sabe mas é um mané!!!

    Comentário por Cristiano Terra Menezes — Terça-feira, 15 Setembro 2009 @ 9:01 pm | Responder

  11. Cristiano: eu nunca paro de aprender, mas prefiro aprender com quem sabe escrever português. Você vem aqui dar lições e cometendo erros de ortografia, isso não ofende: irrita!

    Comentário por O. Braga — Terça-feira, 15 Setembro 2009 @ 10:56 pm | Responder

  12. Desculpe não era essa a minha intenção de dar lição,procurei postar uma opinião,os erros de português são causados pela pressa,peço mais uma vez desculpa se eu lhe deixei irritado,prometo não entrar mais no seu blog obrigado!!!

    Comentário por Cristiano Terra Menezes — Quarta-feira, 16 Setembro 2009 @ 12:56 am | Responder

  13. Faça aquilo que quiser; mas em vez de “ameaçar” dar lições aos outros, dê mesmo! Não ameace; ensine! Não tenha medo de errar!
    Uma opinião não consiste em dizer que “a outra pessoa não está completamente certa” sem referir o quê: é, antes, dizer o que pensa que está certo. Uma opinião é concreta, e não uma insinuação dissimulada. Se achamos que falta qualquer detalhe num raciocínio alheio, dizemos o que falta, e não apenas insinuamos que falta algo que não concretizamos.

    Comentário por O. Braga — Quarta-feira, 16 Setembro 2009 @ 4:01 am | Responder

  14. Em busca de informações sobre o “belo” nas artes, acertei-me aqui no “belo” da razão.
    Fica o meu agradecimento.

    Comentário por Marcio — Sexta-feira, 27 Maio 2011 @ 8:57 pm | Responder

  15. Portanto acredita que todo e qualquer ser humano tem a escolha entre o bem e o mal porque tem algum tipo de consciência?

    Comentário por Pedro Moreira — Sexta-feira, 10 Junho 2011 @ 7:15 pm | Responder

    • Naturalmente que aceito o verbo “acreditar”, porque até a ciência se baseia em crenças.

      Quem tem uma noção da física quântica sabe que o determinismo, a nível do fundamento da própria matéria, não existe. No ser humano, existe o livre-arbítrio que decorre da vontade e juízo. O Homem age porque é livre, e não é livre porque age.

      Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 10 Junho 2011 @ 9:52 pm | Responder

  16. O bem e o mal.

    O que é o bem e o mal? As respostas sobre isso, vinda de religiosos, logo é enfatizada com muita propriedade. O bem vem de Deus e o mal vem do diabo. Ora que resposta vazia parece conclusão de criança.
    Analisando o bem e o mal vejo o seguinte. No nosso planeta existem os animais, tanto os vertebrados como os invertebrados, para eles não existe nem maldade nem bondade, apenas seguem seus instintos de sobrevivência, se um animal mata o outro é para se alimentar ou quando se vê acuado, ataca para se defender. Por outro lado nós seres humanos somos os verdadeiros criadores tanto do bem como do mal. Se não houvesse nós seres humanos, o planeta terra, seria um lugar perfeitamente equilibrado sem a ira do mal ou o benemérito do bem. Nós é que deturpamos o bom andamento da natureza, estamos aqui somente para destruir este belo planeta azul incrustado neste imenso universo misterioso. Atribuir o mal a um suposto diabo e o bem a um suposto Deus me parece hipocrisia das mais profundas. Devemos ser sinceros e reconhecer que o nosso individualismo, egoísmo, inveja, maledicência, orgulho e muitos outros defeitos morais foram os verdadeiros criadores, tanto da bondade como da maldade.

    Paulo Luiz Mendonça.

    Comentário por Paulo Luiz Mendonça — Sábado, 21 Setembro 2013 @ 2:12 pm | Responder


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