Este postal tem algo de contraditório: por um lado, critica ― e bem ― o islamismo por ser, desde a sua fundação e na sua essência, mais uma ideologia política do que uma religião. Por outro lado, critica as religiões cristãs que “não se caracterizaram por terem estado à frente dos movimentos que lograram terminar com a censura, declarar a liberdade de credo,” etc., isto é, critica-se o islamismo por ser uma ideologia política, e critica-se o cristianismo por não ser uma ideologia política de sinal contrário.
A ética só pode ser universal; não existe outra.
Quando a ética não é universal porque as elites se recusam a discuti-la racionalmente, a sociedade encontra-se já no advento de uma guerra civil.
Não podemos esquecer que a Igreja de Roma herdou o que restou do Império Romano do Ocidente. Não fora a Igreja de Roma, a Idade das Trevas (Idade Média) seria ainda pior do que foi. Foi o Cristianismo que incutiu o que sobrou da civilização romana nos suevos e nos godos que ocuparam a península e praticamente todo o espaço europeu coincidente com o Império Romano do Ocidente. O poder de Roma foi outorgado pelo poder político feudal, e não foi Roma que impôs o seu poder aos senhores feudais, até porque o Vaticano nunca teve uma força militar própria (com a excepção dos templários). Portanto, na Idade Média, a Igreja Católica foi muito mais vezes utilizada e manipulada pelo poder político secular do que o contrário.
O poder temporal do Papa sempre foi outorgado e delegado pelos senhores feudais, e o contrário disto não é verdade. A prova da veracidade do que digo é que, com o fim do feudalismo, o Papa perdeu o poder temporal que nunca teve na realidade. Não foi o Papa que comandava Carlos V; era Carlos V que comandava o Papa. E quando Henrique VIII (casado com uma irmã de Carlos V, da qual se queria divorciar) deixou de comandar o Papa por causa do comando de Carlos V sobre o Papa, o rei de Inglaterra criou uma Igreja só para ele e conseguiu o divórcio que Carlos V não queria, através da manipulação do Papa.
A política sempre tentou usar o Cristianismo como instrumento, e quando isso não aconteceu, o Cristianismo é criticado e mesmo perseguido pelas elites e pelo Estado, como acontece hoje em países como o Canadá e China, e começa a acontecer na Europa.
A crítica ética
O acto de crítica ética não pode significar um sinal de fraqueza moral. Se não existisse crítica ética, esta não teria uma hierarquia de valores e seria um niilismo, e seria exactamente a antítese daquela. A liberdade não pode significar a ausência de ética e de um espírito crítico baseado numa moral que provém da ética. O que podemos discutir é a ética, mas discuti-la racionalmente e objectivamente, e não utilizar uma subjectividade ausente de argumentação como forma de cada um de nós impor a sua ética.
A ética só pode ser universal; não existe outra. Quando a ética não é universal porque as pessoas ― e particularmente, as elites ― se recusam a discuti-la racionalmente, a sociedade encontra-se já no advento de uma guerra civil.
Em relação à “homossexualidade versus Cristianismo”, um dos argumentos libertários utilizados é que antes do Cristianismo, na Antiga Grécia, a homossexualidade era tolerada. Desde logo, é um facto de que a homossexualidade já é tolerada hoje na nossa sociedade; o problema é que o gayzismo não quer ser tolerado, mas pretende ser celebrado na sociedade. A “tolerância” já não é suficiente para os gays; para eles, já é necessária a supremacia da cultura gay. A “liberdade” de uma minoria gay significa já, em países como o Canadá, a repressão da maioria não-gay.
Mas esse argumento da “Antiga Grécia” esconde propositadamente factos “inconvenientes”. Em primeiro lugar, nunca passou pela cabeça dos antigos gregos estabelecer o “casamento” gay na sociedade; o casamento, entre os gregos, e apesar da “tolerância” em relação à homossexualidade, sempre foi entre uma mulher e um homem. Em segundo lugar, não passava pela cabeça de dois homens gregos adoptarem uma criança; a adopção de uma criança e a mulher estavam exclusivamente ligadas. Em terceiro lugar, na Grécia Antiga não só a homossexualidade era tolerada, como era tolerada a pederastia e mesmo a pedofilia.
Por último, uma das razões ― senão a mais evidente ― porque a homossexualidade era tolerada na Antiga Grécia, era porque os homens gregos chegavam a passar décadas em campanhas militares fora de suas casas, como aconteceu com a campanha de Alexandre Magno que o levou às fronteiras da Índia; o “Mito de Ganimedes” (1) foi um exemplo de manipulação religiosa por parte da política.
Quando pegamos no exemplo da tolerância da homossexualidade na Grécia Antiga, encontramos um erro e uma contradição do Libertarismo. O erro é a “falácia de Parménides”, que consiste em transportar para o presente os critérios de julgamento de há 2.600 anos. A contradição do Libertarismo é ― defendendo o Libertarismo uma visão dialéctica hegeliana da História, segundo a qual o mundo caminha para uma maior perfeição ― a de validar as circunstâncias, o ambiente moral e ético de uma sociedade onde, para além da escravatura, existia a pederastia legalizada e a pedofilia tolerada.
O proibicionismo
Não podemos criticar o proibicionismo do uso de drogas, da prostituição, da pederastia, da pedofilia, etc., sem apresentar argumentos racionais que sustentem a nossa opinião; não podemos criticar as proibições sem sustentar racionalmente as nossas críticas acerca dessas proibições, sob pena de estarmos a seguir a Teoria Crítica de Teodoro Adorno que se apoiou no conceito freudiano de “repressão” e em Marcuse que inventou a “tolerância repressiva”, ou a adoptar o absurdo de Deleuze e Guattari na teoria da libertação do Homem das garras de Freud. Se a liberdade significa a desordem moral e ética, se ela se traduz num utilitarismo desenfreado que não tem em consideração devida os mais indefesos e fracos na sociedade, não me interessa essa liberdade ― nem a mim, e estou seguro, nem à maioria.
Em alguns países fortemente secularizados, como é o caso da Suécia, a punição pela prática da prostituição não se aplica às prostitutas, mas antes aos homens que as frequentam, isto é, o Estado sueco, que diz “defender a mulher”, passa assim um atestado de menoridade intelectual às prostitutas, e um reconhecimento de incapacidade de julgamento moral e de imbecilidade às mulheres suecas em geral.
Nos países onde a prostituição não é proibida, como é o caso de Inglaterra, ela é incentivada, como constatamos nos centros de emprego ingleses, onde às prostitutas que lá procuram emprego é-lhes indicado novo emprego na área da prostituição. Por isso, fico sem saber como é que o proibicionismo da prostituição é pior do que o Libertarismo de Direita inglês (neoliberalismo) e o marxismo cultural (Libertarismo de Esquerda) sueco. Na ética não existem situações ideais e absolutas; existem situações mais positivas que outras.
Toda a ideologia, por definição, tende para um totalitarismo, e enquanto existir um homem, existe uma ideologia. Como diz Kant, os homens são “insociavelmente sociáveis”: querem viver em sociedade porque sabem que isso é necessário (sociabilidade), mas nenhum está disposto a impor a si próprio as exigências provenientes dessa existência colectiva (insociabilidade). Entregues a si mesmas as relações humanas seriam geradoras de conflitos e insegurança, acabando numa situação contrária ao objectivo desejado pela associação. Portanto, a “repressão necessária” é aquela que decorre da estrita necessidade ― e não mais do que a estrita necessidade ― da sociabilidade. Sem a “repressão necessária”, a insociabilidade sobrepunha-se à sociabilidade. Os critérios que presidem à definição dessa “repressão necessária” devem ser discutidos e incluídos na ética do Direito.
Nas sociedades ocidentalizadas, existe uma dicotomia insanável: o Libertarismo de Esquerda, que usa o marxismo cultural e toda a lógica antropocêntrica marxista que tolhe a liberdade em nome da liberdade; e o Libertarismo de Direita, que segue o hayekismo antropocêntrico que transforma a liberdade numa expressão de um utilitarismo coevo, que acaba por transformar a liberdade num privilégio de elite. Em ambos os casos, estamos a falar de ideologias, e como todas as ideologias, têm uma ética teleológica (os fins justificam sempre os meios).
Eu penso que o diálogo não é possível entre iguais, antes só é possível entre diferentes. Entre iguais, ou não há diálogo devido à crença que se estabelece acerca da unanimidade garantida, ou a própria repressão igualitarista e uniformizadora impede o diálogo. Numa sociedade repressiva não existe comunicação biunívoca senão para fora dela.
Contudo, numa sociedade onde a diferença seja permitida e a liberdade de ser diferente exista, este facto não deve significar que a diferenciação se transforme ela própria numa ideologia política com agenda própria rumo a um totalitarismo ― como acontece com o gayzismo. Só através da discussão ética e racional entre “diferentes” é que os totalitarismos podem ser evitados, porque numa sociedade de iguais já se vive num totalitarismo.



Antes de nada, gracias por leer, gracias por citar y por comentar. Y perdón por expresarme en castellano
Mi crítica a las iglesias cristianas es justamente la misma que al islamismo: inmovilismo y, mientras estuvo en situación de poder, limitación de las libertades individuales. Cierto que el desarrollo de los derechos individuales ha sido posible en occidente gracias a algunos pensadores cristianos y las tradiciones que se nos transmitieron. También es, pero, cierto, que cualquier jerarquía hará siempre todo lo posible por mantener sus privilegios… incluso a costa de imponer una “fe” a quien no la quiere. Eso es liberticida.
La ética ha de ser universal, es verdad, pero para ello ha de librarse de las mordazas de “mi” moral y de “tu” moral. Una ética que no sirva por igual para mí como para un homosexual no es universal, luego no es ética.
En ningún momento hablo de pederastia, asesinato, pedofilia, incesto … hablo, concretamente de drogas, prostitución, libertad de expresión. Si prohibimos el consumo y el mercadeo con marihuana… por qué no lo hacemos con el vino? Dónde está lo punible en que una mujer venda temporalmente su cuerpo? Por qué está prohibido quemar la foto de un Rey? En nombre de qué valores éticos se sostienen esas prohibiciones? Los mios? Los tuyos? Si considero la prostitución inmoral, es mi deber hacer todo lo posible por educar a las mujeres (y los hombres) en esa “inmoralidad”, pero no es de recibo prohibirla, en tanto que según la moral de otros, no supone inmoralidad alguna. La norma ética válida en este caso es la de la voluntariedad: la mujer es libre para ejercer la prostitución. Que no es lo mismo que: convirtamos a las mujeres en “nuestras prostitutas”.
Termino: cuando hablo de “iguales” lo hago desde la perspectiva de la igualdad ante la ley. Desde la perspectiva de la libertad. Sólo los hombres iguales ante la ley y libres pueden interactuar de forma ética. Si uno de ellos es “desigual”, esto es, está favorecido por la ley o desfavorecido por ella, o está bajo coacción y no actúa libremente, la interacción será viciosa desde su origen, e ilegítima.
Saludos,
Luis I. Gómez
Comentário por asturleones — Terça-feira, 2 Setembro 2008 @ 12:39 pm
Luis, me permita dirigir-me a você em português, o meu portunhol não seria mais fácil para você ler, eu garanto.
Agora, se eu entendi direito o que você escreveu, tenho que discordar completamente. O que você fala não é liberdade no sentido do que aprendemos em Filosofia. Está mais para libertinagem. O facto de o ser humano ser livre não lhe dá o direito de “esquecer” que vive em sociedade o que lhe traz responsabilidades. A minha liberdade vai de encontro à liberdade do outro e, por isso mesmo, termina no momento em que fere essa mesma liberdade(do outro, claro).
Se alguém considera que prostituir-se, drogar-se, abusar de crianças, não fere a liberdade do outro deveria viver em outra sociedade que não a nossa. Não esqueçamos do “senso comum”, base para a vida em comunidade, também.
As leis não foram criadas para ferir a ética, mas para cuidar de quem considere a ética na sua vida.
Isso eu chamo de legitimidade e respeito pelos direitos humanos.
Abraço,
Delfina
Comentário por Delfina — Terça-feira, 2 Setembro 2008 @ 5:35 pm
[...] Arquivado como: ética — O. Braga @ 7:24 pm Tags: ética, liberdade, Moral Em resposta a este comentário do prezado Luís Gomez, escrevo em português porque as nossas línguas não são muito diferentes. [...]
Pingback por Liberdade e ética ― resposta a um comentário « perspectivas — Terça-feira, 2 Setembro 2008 @ 7:24 pm
Mezclas, creo, estimada Delfina, varias cosas. Es importante no confundir -y en eso tu lengua es muy gráfica- lo que el individuo hace consigo mismo y lo que hace con otros. Dices:
“…prostituir-se, drogar-se, abusar de crianças, não fere a liberdade do outro …” y las dos primeras acciones no interfieren en absoluto en la libertad de nadie excepto del propio sujeto. Cada uno es propietario de sí mismo y libre de hacer, en ese supuesto y sin que ese acto afecte la libertad o la vida de los otros, lo que quiera.
El ejemplo del suicidio es oportunísimo. Es posible que desde una óptica moral el suicidio pueda ser reproblable, en tanto que supone acabar con la propia vida. Pero el suicida no menoscaba ninguno de los derechos fundamentales de nadie más. Actúa libremente y no compromete a nadie. Por qué prohibirlo?
Las leyes, que han de ser válidas para todos, no pueden sustentarse exclusivamente en una forma de entender la ética o la moral. Ha de llegarse a un acuerdo de derechos mínimos e inalienables que proteger con ella. El que exista una ley que permite el aborto, por ejemplo, no implica que yo deba abortar. Mi moral no me lo permite. Es fruto de la educación que he recibido, no de las prohibiciones que hubiese podido padecer.
Un abrazo,
Si tengo tiempo intentaré comentar en el otro post
Estoy preparando un artículo sobre libertad, contrato social y “una pizca de anarquía”; tal vez te interese. Creo que saldrá mañana.
Comentário por asturleones — Terça-feira, 2 Setembro 2008 @ 9:37 pm
A minha resposta ao comentário do Luís Gomez está aqui.
Comentário por O. Braga — Quarta-feira, 3 Setembro 2008 @ 3:03 pm