Em resposta a este comentário do prezado Luís Gomez, escrevo em português porque as nossas línguas não são muito diferentes.
A minha opinião é diferente.
Quando da queda do Império Romano, o Cristianismo existia já como religião do Império. A queda do Império Romano significou um retrocesso civilizacional imenso na Europa, e poderia ter sido muito pior se não existisse na Europa um clero católico letrado. Por exemplo, o clero católico que existia na península ibérica no tempo de Pelágio (Pelayo) era o mais evoluído que existia na Europa devido aos contactos culturais que tinha com o império árabe (1) .
Durante a Alta Idade Média, quem salvou a cultura na Europa? A Escolástica. Se existiu o Renascimento em Itália, ele deveu-se a uma elite cultural que o antecedeu, composta essencialmente pelo clero católico: o Renascimento Carolíngio, Henrique e Remígio de Auxerre, João Escoto Erígena, Gerberto, Anselmo de Aosta, Roscelino, Abelardo, a Escola de Chartres, Bernardo de Claraval, S. Boaventura , etc..
Na Baixa Idade Média, temos mais clérigos católicos que resgataram a herança cultural europeia: Alberto Magno, S. Tomás de Aquino , Guilherme de Occam, entre muitos outros. Mesmo durante o renascimento italiano, a Escolástica abriu caminho ao Humanismo através de católicos como Dante e Petrarca. Sem toda esta gente, não seria possível a existência da cultura renascentista de Lourenço Valla, Montaigne não teria matéria onde beber a sua cultura, Maquiavel não se interrogaria sobre a existência humana, e acima de tudo, Erasmo, Lutero, Calvino, Bruno, Campanella e outros não teriam possibilidade de escreverem a cultura europeia.
A Idade Média só não foi uma catástrofe total e irremediável porque existiu o Cristianismo com sede em Roma.
Poderia continuar a contar a História do conhecimento europeu, passando por Hobbes, Locke, Descartes, Pascal, Leibniz, Kant, Hegel, etc., e em todos eles o Cristianismo esteve presente. O imobilismo que existiu e existe a Europa não é culpa do Cristianismo, mas do poder político. Por vezes, a política usou e usa a religião cristã, mas não podemos dizer que o imobilismo da sociedade se deve ao Cristianismo. O imobilismo é próprio do poder secular e temporal. Seria o mesmo dizermos que o imobilismo na China se deveu ao confucionismo e não às dinastias dos imperadores chineses; seria injusta tal afirmação. O confucionismo ainda existe, mas os imperadores chineses mudaram de nome, adoptando agora uma outra filosofia para assim justificarem o seu imobilismo político. O grande problema do secularismo político é que se agarra eternamente ao bode expiatório da religião para assim tentar justificar ad Aeternum os seus revezes.
Depois, há que definir “imobilismo”. O que é o “imobilismo”? O imobilismo pode significar retrocesso civilizacional em nome de um pretenso “mobilismo”. Esta é uma questão que deixo para outra ocasião.
Alguns pensadores cristãos? Praticamente todos, com excepção dos que habitaram no fim do século 19 e durante o século 20.
Quando a política utiliza a religião, a culpa é da religião? Quando a política manipula a filosofia, a culpa é da filosofia? Quando a política manipula as massas, a culpa é das massas?
Não devemos confundir “ética” com “lei”. Desde o tempo de Cristo, as leis na Europa nunca coincidiram totalmente com a ética cristã. A escravatura na Europa até ao fim da Idade Moderna não era eticamente recomendável, mas era legal. O que é legal pode não ser ético. O simples facto de existir hoje um partido político que defende a legalização da pedofilia na Holanda, não é ético, mas é legal. A homossexualidade foi legal no tempo de Roma, deixou de ser legal na Idade Média, e já é legal outra vez ― e ninguém pode prever o futuro dizendo que não será ilegal novamente.
O diferendo entre a ética e o gayzismo tem dois níveis diferentes:
O primeiro ― mais “benigno” e “venial” ― diz respeito ao jusnaturalismo (que já vem de Platão e Aristóteles).
O segundo ― mais grave ― tem a ver com a “ética deontológica” que distingue o Homem dos animais irracionais, isto é, a ética que defende os mais fracos numa sociedade. Esta “ética deontológica” opõe-se,pelas mesmas razões, ao aborto livre e à adopção de crianças por duplas de gays, porque a adopção existe para dar uma família a uma criança e não para dar uma criança a uma família. Se juntarmos o jusnaturalismo à “ética deontológica”, facilmente chegamos à conclusão que uma criança deve ter um pai e uma mãe, mesmo que estejam divorciados. Quando os Homens se recusam a seguir a natureza ― segundo Alberico Gentile ― nasce a guerra, seja ela militar ou cultural.
A verdade é que a Europa está em guerra cultural, porque teima em não seguir a natureza devido a pressões políticas tão radicais, que os europeus já perderam a autoridade moral para criticarem o radicalismo absurdo do fundamentalismo islâmico.
A pergunta que se faz é a seguinte: até que ponto determinado facto, comportamento ou ideia, sendo eticamente censuráveis, devem ser proibidos por lei? A minha resposta é: quando um facto, comportamento ou ideia tenham ― ou possam vir a ter por sua acção (previsibilidade) ― repercussões negativas em membros da sociedade que estão particularmente desprotegidos ou fragilizados.
Por exemplo, a lei que proíbe a venda de tabaco a menores de idade é correcta; só não percebo porque é que não se pode vender tabaco a um adolescente de 14 anos na Holanda, mas com essa idade já existe “consentimento sexual”. A “responsabilidade” do adolescente de 14 anos existe para umas coisas e não existe para outras? Onde está a coerência ética? O Libertarismo é isto, ou o Libertarismo é hipocrisia política?
Assim como um partido que defenda o racismo é proibido na Holanda, um partido que defende a legalização da pedofilia deveria ser proibido ― mas não o é naquele país. Porquê? Porque a criança não tem poder, e porque a lei holandesa (e a europeia, em geral) não coincide com a ética.
O diferendo entre a ética e o gayzismo é insanável porque o gayzismo pretende erradicar direitos básicos dos membros mais fracos da nossa sociedade: as crianças (los niños). O “casamento” gay tem como alvo principal as crianças (engenharia social por aculturação anti-natura através de um sistema educativo enviesado), e esta contradição é eticamente insanável. Não existe compromisso possível, porque o lobby político gay se coloca fora de uma ética universal e jusnaturalista, tentando impor uma sua ética de grupo sócio-cultural a toda a sociedade. Seria como se a minoria islâmica na Europa se arrogasse no direito de impor a lei da Sharia a toda a sociedade europeia ― é exactamente o mesmo: um conflito eticamente insanável.
Embora não nos pareça agora, países como a Espanha, a Inglaterra e a Holanda vão pagar muito caro determinados radicalismos que parecem hoje a nossos olhos como sendo “progressistas”. Já existem sintomas da maleita, mas o diagnóstico ainda não foi feito porque ainda não houve tempo para isso.
Aqui aplicam-se os mesmos argumentos ético-legais: a protecção dos membros mais frágeis da sociedade. A partir do momento em que um determinado comportamento (prostituição) ou acto cultural (pornografia, por exemplo), possa influenciar a educação e o comportamento jusnatural de uma criança desde tenra idade, devem ser proibidos por lei.
A mulher adulta e idónea é livre de exercer a prostituição desde que não induza ― directa ou indirectamente ― cidadãos de menor idade para a mesma actividade, isto é: se o acto de prostituição se fizer de modo a que não influenciem os mais pequenos da nossa sociedade, a prostituição passa a ser uma opção pessoal de uma pessoa adulta ― o que não lhe retira, pelo facto de não ser ilegal, uma carga de negatividade ética. O suicida, pelo facto de não matar mais ninguém senão a si próprio, não deixa por isso de ser moralmente censurável, embora o homicida seja ainda mais censurável porque mata outra pessoa e por isso é preso.
Ahora entendí.




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Luis:
> Sólo los hombres iguales ante la ley y libres pueden interactuar de forma ética.
Semejante combinación de sandez y tautología produce consternación. ¿No te das cuenta del dogmatismo pontificante y pretencioso que manifiesta?
Con el “liberalismo” hemos topado, Sancho.
Comentário por AMDG — Quinta-feira, 4 Setembro 2008 @ 6:30 pm