Neste comentário faz-se referência a Blaise Pascal. Tenho-o esquecido neste blogue e vou falar dele ― das coisas boas e menos boas.
Existe uma diferença entre “fatalismo” e “determinismo”. O determinismo implica a ideia de que a natureza retira, por si e através da sua lógica endógena de criação e destruição, a liberdade ao ser humano; o determinismo está ligado à ideia de um monismo naturalista e cientificista (o caos que gera a vida e que a destrói), ou à ideia de um panteísmo (Espinosa; Deus que coincide com a natureza).
O fatalismo (fado) liga-se à ideia da existência de uma “Providência” divina que tudo controla, e que é o próprio Deus-providência que nos retira a liberdade (Jansenismo).
Em todos os postais que escrevi aqui com o título “Thomas Huxley não tinha razão”, está bem patente a minha preferência ― baseada numa lógica filosófica quântica ― pelo panenteísmo: Deus está presente no universo e para além deste. Um panenteísta muito conhecido foi Leibniz. Existem filosofias panenteístas contemporâneas, como a da religião dos Siques (Siquismo); o próprio Budismo moderno adopta o panenteísmo (quando combina o imanentismo do Samsara e do Kharma, com um teísmo), e o Cristianismo original era panenteísta. De certa forma, o Budismo Mahayana moderno do Dalai-lama (o Budismo do “grande carro”) é inclusivista e abrangente, enquanto o Budismo Hinayana (o Budismo do “pequeno carro”) é uma espécie de Jansenismo oriental.
O panenteísmo defende a ideia de que existe, de facto, uma percentagem de liberdade (livre-arbítrio) do ser humano, embora existam obviamente condicionalismos de ordem física, cultural, ambiental, genética, etc. Assim como Deus está no Universo e para além do Universo, assim o Homem está no mundo e para além do mundo.
Blaise Pascal era um jansenista ― seguidor das ideias do Bispo Cornélio Jansénio, de Port-Royal. O Jansenismo propõe uma “doutrina dos eleitos” ― elitista ― segundo a qual que existe uma plêiade de espíritos ― teoria que preconizava um rigorismo moral e religioso alheio a todo o compromisso, fazendo depender a salvação apenas da acção divina reservada a uma elite. Por isso é que nós vemos alguns Jansenistas que condescendem com o aborto quando praticado pelo vulgo, porque partem do princípio de que só uma elite pode, por graça divina, condescender com a compreensão das consequências espirituais que o aborto acarreta (no caso deste “jansenista”, o “Jansenismo” procura os mesmos métodos de Jansénio com premissas filosóficas diferentes, mas o resultado é equivalente). Não digo que a tese inclusivista do padre jesuíta Molina fosse inócua e altruísta; o que eu digo é que o egoísmo não justifica o cinismo.
Blaise Pascal ficou conhecido pelas suas teses sobre “o limite da razão no conhecimento científico” (mais tarde retomada por Kant), sobre “a compreensão holística do Homem”, sobre a “Condição Humana” (na esteira de Montaigne), sobre o “divertimento como meio de alienação” e sobre “a fé”. Num próximo postal falarei disto tudo, porque as férias acabaram e o tempo já não passa.




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Nunca aprofundei essas questões, mas vamos lendo e aprendendo. Essa da referência ao blog Jansenista está bem metida. Pascal foi um mestre, também nas ciências, ou melhor, mais nas ciências. Do resto apenas conheço excertos e dele gostei de ler Os Pensamentos mas mais não terei lido, a não ser um pouco da sua breve e atabalhoada vida.
Comentário por Henrique — Quarta-feira, 3 Setembro 2008 @ 2:03 pm