perspectivas

Quinta-feira, 14 Agosto 2008

A estética, segundo Kant, Kierkegaard e Adorno

“Há um Deus, mas a nós, homens, só nos é permitido empregar esta fórmula limitada: não podemos pensar e compreender a finalidade que deve estabelecer-se como fundamento da possibilidade intrínseca de muitas coisas naturais, sem a figurarmos e sem figurar o mundo em geral, como o produto de uma causa inteligente (Deus)”.

― Immanuel Kant (Crítica do Juízo)

Pessoa amiga pediu-me para comparar o juízo estético de Kant, de Kierkegaard e de Adorno. A coisa é complicada, porque se trata de comparar a teoria (contemplação) de um racionalista cristão (Kant), com a de um existencialista cristão (Kierkegaard) e ― mais difícil ― com a de um marxista cultural. Depois, há outra dificuldade: reduzir os conceitos ao maior denominador comum, tornando-os inteligíveis e simples, isto é, tornando-os objectivos dentro da subjectividade teórica de cada um dos filósofos mencionados, e dentro da minha própria subjectividade. Vou resumir um após outro, e depois fazer uma resenha comparativa final.


Até que ponto a estética, isto é, o “gosto”, é subjectivo? Diz-se que “os gostos não se discutem”.

Perante esta afirmação (“os gostos não se discutem”), Kant diria que se trata de uma meia-verdade. Não é possível falar no juízo estético de Kant sem nos referirmos, aqui e ali, ao conjunto do seu pensamento ― não podemos destacar uma parte do seu pensamento do todo. Na “Antropologia Pragmática”, Kant aborda as questões inerentes à paixão humana, mas foi na “Crítica do Juízo” que Kant analisou profundamente as questões do sentimento, onde cabe o juízo estético.

Para Kant, a estética é o compromisso entre a Natureza e a Liberdade. Segundo a “Crítica da Razão Prática”, a “natureza” a que Kant se refere é a “natureza humana”, porque Kant distingue a natureza dualista e racional do Homem da natureza exclusivamente irracional. Portanto, embora para Kant a estética seja algo de subjectivo (o “gosto”), existe subliminarmente uma componente racional na estética.
Não existe “gosto” sem “Razão”. A própria “subjectividade” é uma forma interpretativa da realidade objectiva racionalmente entendida; quando dizemos que “isso é subjectivo”, estamos a considerar implicitamente uma escala de valores na análise em relação a uma realidade objectiva e passível de ser racionalizada.

Portanto, nada é totalmente subjectivo, mas tudo é passível de ser valorado numa escala mais ou menos racional. Quando olhamos para uma obra de arte, ou dizemos que gostamos dela “porque gostamos” e sem mais explicação, ou fundamentamos o nosso gosto. Na segunda hipótese utilizamos mais a razão; na primeira hipótese utilizamos menos a razão, porque mesmo que não déssemos explicações racionais para o nosso gosto, a razão não deixa, por isso, de existir no ser humano. Em função disto, Kant formulou três máximas que valem para o senso comum estético e para o senso comum em geral:

1. Pensar por si próprio é evitar a passividade da razão.

A passividade da razão leva à heteronomia da razão, isto é, ao preconceito negativo. O preconceito negativo é fruto da incapacidade de pensar. Contudo, existe hoje o fenómeno inverso, que é julgar que o combate ao preconceito negativo passa pela passividade da razão, isto é, da negação em pensar ― o que acontece no nosso tempo com o relativismo de valores. Aliás, a segunda máxima perece reforçar este aspecto negativo.

2. Pensar pondo-se no lugar dos outros e alargar o modo de pensar do Homem elevando-o acima das suas condições particulares de juízo.

Contudo, ao pormo-nos no lugar dos outros, isso não significa que passemos a não ter opinião própria formada, isto é, que a passividade da razão se acentue com esta atitude de tolerância. Para se salvaguardar de más interpretações, Kant estabelece a terceira máxima:

3. Pensar de modo a estar sempre de acordo consigo mesmo.

Esta é a máxima da coerência.

Resumindo: primeiro, pensar; segundo, colocarmo-nos no lugar dos outros, e terceiro, sermos coerentes com a nossa forma de pensar. Análise e síntese. Naturalmente que a forma de pensar pode mudar, porque nada é definitivo, mas a coerência connosco próprios não se deve alterar.

Estas três máximas aplicam-se ao juízo estético “subjectivo”. Mas se repararmos, existe aqui uma racionalidade utilizada na análise da subjectividade do juízo estético. A subjectividade é valorizada numa grelha de valores que são objectivos e racionais.

Em suma: a meia-verdade da afirmação supracitada (“os gostos não se discutem”) consiste no facto de o acordo entre a natureza e a liberdade (acordo que enforma a estética) resultar da necessidade do Homem realizar a sua liberdade na natureza ― sem se opor ao mecanismo desta, sem ir contra a natureza humana ― mas tendo a necessidade de que a própria natureza humana esteja de acordo com a sua liberdade. O acordo entre a natureza humana e a liberdade ― que constitui o prazer do belo ― é também a exigência e o princípio fundamental da vida moral que se fundamenta numa ética racional ― embora as exigências da vida moral não constituam os objectos naturais, que estão condicionados apenas pelas categorias do entendimento (razão).

Kant refere-se ao “juízo de entendimento” e ao “juízo do sentimento”. O “juízo do sentimento” não determina a constituição dos objectos, isto é, não faz a análise dos objectos que temos à nossa volta, mas antes faz a reflexão sobre esses objectos existentes para descobrir o seu acordo com as exigências da vida moral. Contudo, sendo que a moral tem origem numa ética escorada numa escala de valores racionalizados, a razão acaba por interferir indirectamente no “juízo do sentimento”.

Corolário: segundo Kant, quando se diz que “os gostos não se discutem”, esta afirmação não é racionalmente sustentável e demonstra uma passividade da razão por parte de quem a profere. Os gostos discutem-se, porque embora os gostos não determinem a constituição objectiva dos objectos, eles reflectem o acordo (ou não) com as exigências da vida moral racionalizada pela ética. Por dedução, a ética é inseparável da estética. Por isso é que arte deste calibre é esteticamente sofrível, pelo menos enquanto os valores éticos da sociedade não forem mudados. Segundo Kant, à luz de uma ética niilista, esta exposição de arte seria de uma beleza retumbante. Se mudarmos a ética que rege uma sociedade, que é e só pode ser universal, mudamos também a vida moral e com ela as relações entre a natureza humana e a liberdade, isto é, mudamos o juízo estético. O problema é saber se uma mudança destas não constitui um retrocesso civilizacional, conforme prognosticado por Spengler ― mas isso fica para outro postal.

Segue: Kierkegaard e a estética.

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4 Comentários »

  1. Maravilha. Seria bom que se recomendasse a Habacuc esta leitura, mas acredito que, para ele, Kant e a ética são apenas dois palavrões! Obrigada pelo estudo! Sempre achei Kant o mais difícil de se entender, desses três. Vamos ver a sequência.

    Comentário por Delfina — Quinta-feira, 14 Agosto 2008 @ 3:18 pm | Responder

  2. [...] Enquanto que para Kant a estética está intimamente ligada à ética, e que todos nós podemos ― uns mais do que outros, naturalmente ― ser estetas, Kierkegaard considera a estética como sendo inferior à ética: um esteta é alguém que ainda não descobriu os caminhos da ética. Kierkegaard definiu a vida humana em três estágios: [...]

    Pingback por A estética, segundo Kant, Kierkegaard e Adorno (2) « perspectivas — Sexta-feira, 15 Agosto 2008 @ 12:56 pm | Responder

  3. [...] Leia mais direto na fonte: espectivas.wordpress.com [...]

    Pingback por estetica » Blog Archive » A estética, segundo Kant, Kierkegaard e Adorno — Quarta-feira, 3 Dezembro 2008 @ 3:36 am | Responder

  4. os dois links levam à mesma página…

    Comentário por Helô Cuente — Quinta-feira, 22 Dezembro 2011 @ 12:45 pm | Responder


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