perspectivas

Terça-feira, 15 Julho 2008

Falando português, para que todos entendam

Vem hoje a notícia nos jornais de que 35% das pessoas pobres em Portugal estão empregadas. Uma das razões para este fenómeno é a de que em muitas famílias portuguesas existe, pelo menos, um desempregado. Todos os dias ouço histórias; ainda ontem ouvi uma história de uma empregada de uma escola do ensino básico que ganha 400 Euros, casada, com filhos e que tem o marido desempregado de longa duração.

De mal a pior:

Depois do “discurso da tanga” de Durão Barroso, José Sócrates mentiu e apresentou-nos o “discurso do fio-dental”. A julgar pelo seu silêncio até agora, Manuela Ferreira Leite prepara-se para nos fazer o “discurso do nu”.

Como pode uma família com crianças viver com 400 Euros por mês? A senhora fez anos e os docentes da escola fizeram uma “vaquinha” para lhe oferecer um bolo de aniversário e uma prenda para que ela tivesse uma nota de festa em família; ao receber o bolo, a senhora chorou que nem uma Madalena…

Eu aconselho vivamente a José Sócrates a não vir ao distrito do Porto e ao Vale do Ave em campanha eleitoral, porque corre sérios riscos de levar um tiro. Por aquilo que ouço aqui e ali, não estou a brincar. As preocupações do general Garcia Leandro fazem todo o sentido.

O desemprego crescente

Os números do desemprego deste governo são um embuste. Também ouço histórias. Dizem que os serviços de emprego (IEFP) do Estado distorcem os números pelo cansaço das pessoas, enviando sistematicamente postais com pedidos de informação “disto e daquilo” que têm que ser devolvidos dentro de um prazo determinado, sob pena de os serviços darem baixa estatística do desempregado. Muita gente cansa-se e deixa de devolver os impressos recebidos. A guerra deste governo é a estatística, em todas as áreas.
Embora os números oficiais do desemprego andem pelos 8,5%, toda a gente sabe que o desemprego não oficial ultrapassou em muito os 10%. No distrito do Porto e Vale do Ave andará seguramente pelos 15% da população activa, com tendência a subir. Existe um pacto de regime do Poder político em Lisboa para escamotear os verdadeiros números do desemprego para que o alarme social não seja maior do que já é, e os me®dia controlados pelo poder económico andam cooperantes com o poder político como nunca andaram (nem no tempo de Salazar). A independência dos me®dia, assim com a independência da Justiça, terminaram a partir do momento em que Bruxelas passou a controlar totalmente a economia portuguesa.

A cagada do Euro e a borrada de Schengen

A crise económica que estamos a atravessar não é só devida a causas externas (crise do Subprime, preço do petróleo, etc.). Se assim fosse, seria uma crise conjuntural, e não uma crise estrutural que é. Em Portugal existe uma crise estrutural, e são os actuais políticos do Bloco Central os grandes responsáveis por ela, secundados por uma classe empresarial maioritariamente semi-analfabeta que abre falência atrás de falência, mas não é substituída convenientemente porque a macro-economia europeia que nos é imposta não o permite. Usando uma metáfora, é como se faltasse o ar à iniciativa privada nacional porque o ar é extraído e retirado pela macro-economia europeia.

Portugal não estava preparado para o Euro, não soubemos esperar para entrar na melhor altura, ou não entrar nunca; precipitamo-nos, e o desastre está à vista. Portugal deveria ter permanecido mais uns anos com o Escudo indexado ao Euro numa banda de tolerância de 3%, como aconteceu até 2000, e como outros países europeus que aderiram entretanto à União Europeia fazem ainda hoje. Se compararmos as taxas de juro na Banca desses países europeus que ainda não aderiram ao Euro mas que mantêm as suas moedas indexadas ao Euro (Suécia, por exemplo) com as nossas actuais taxas de juro bancárias, as diferenças são irrelevantes, e esses países têm a vantagem do controlo das suas economias, caso seja necessária uma intervenção localizada.

A classe política portuguesa aliou-se à plutocracia internacional e pôs os seus interesses à frente dos interesses do povo e do país.

Com o Tratado de Schengen, a abertura das fronteiras trouxe consigo também as armas ilegais que vimos disparar em Loures e um pouco por todo o país. Schengen é sinónimo de insegurança. A única vantagem que Schengen trouxe aos portugueses foi poupar no tempo de espera nas fronteiras; pura comodidade para quem viaja em primeira classe, porque quem viaja em terceira classe espera sempre numa fila qualquer. Schengen beneficiou uma elite e prejudicou o povo em geral, que vive hoje mais inseguro.

A falta que o Escudo faz agora

No blogue que me fecharam (Letras Com Garfos), já em 2004 escrevi e previ o que se está a passar agora; só um míope não via. Com o Euro, Bruxelas não só impõe um défice das despesas do Estado controlado abaixo dos 3%, como combate a inflação de uma forma cega e brutal. Este tipo de medidas draconianas paralisam qualquer economia aberta e pequena, como é a nossa, que em tempos de crise conjuntural necessita sempre de uma margem razoável de inflação por injecção monetária localizada para relançar a dinâmica económica e incentivar o investimento privado.

Pior do que a inflação causada por injecção de moeda na economia (que produz uma euforia inicial mas que causa, mais tarde, uma ressaca) é a estagnação total de uma economia ― mas os nossos economistas alinharam pelo diapasão da política económica do potentado alemão. Um “crescimento” de 1% para um país pobre e com uma mão-de-obra barata (a nível europeu) é um eufemismo para “estagnação económica”.

Com a estagnação da economia, a ressaca é permanente e depressiva, enquanto que com uma inflação controlada mas não de uma forma obsessiva, os efeitos da ressaca quando chega, num período posterior de maior actividade económica e crescimento, podem ser, por sua vez, combatidos com medidas económicas e sociais de apoio.

Portugal já teve crises económicas graves ― por exemplo, quando o FMI foi obrigado a intervir através de um governo de Mário Soares ― mas os utensílios monetários disponíveis então foram utilizados para ultrapassar a crise (desvalorização do Escudo, inflação razoavelmente controlada sem medidas draconianas, investimento do Estado). A inflação que temos hoje (3,4%) existe pelas piores razões e nada tem a ver com o aquecimento da economia; pelo contrário, esta inflação tem a ver com o arrefecimento da economia causado pela inusitada subida do preço do petróleo. Até as vantagens que o Euro nos poderia trazer para compensar o aumento do petróleo em dólares não existem devido à roubalheira institucionalizada pelo cartelismo apadrinhado pelo governo.

O factor Espanha

Ter Espanha aqui mesmo ao lado não se revelou uma vantagem, porque Espanha protegeu a sua economia e Portugal abriu a sua. A economia espanhola têm funcionado como faz um eucalipto entre outra vegetação: secou a economia portuguesa, e os nossos políticos teimaram em não ver isso. Quando a economia portuguesa empobreceu e já não tem mais para chupar, a economia espanhola deixa de crescer à mesma velocidade (não é só a crise do Subprime; os sintomas já vêm de trás) e Zapatero vem agora dizer que dá prioridade à ligação do TGV a França: eu faria exactamente o mesmo, secou a “mama”, e enquanto não existirem mais investimentos públicos de elefantes brancos financiados pela UE, os espanhóis vão tratar da sua vidinha ― que era o que nós deveríamos ter feito em tempo oportuno. Entretanto, a produção portuguesa e as estruturas locais de distribuição foram literalmente desmanteladas por um efeito duplo de dumping comercial associado a um proteccionismo espanhol camuflado. O efeito para a nossa economia foi devastador.

Hoje, a nossa dependência económica de Espanha é intolerável, porque mais de 40% do total das nossas compras vêm do país vizinho. Não soubemos diversificar a nossa economia, porque os nossos políticos preferiram “abrir as pernas”. Este é também um dos factores que causa a estagnação económica portuguesa, porque colocamos os ovos todos no mesmo cesto.

Só nos demos conta da merda quando ela embateu na ventoinha

Depois do “discurso da tanga” de Durão Barroso, José Sócrates mentiu e apresentou-nos o “discurso do fio-dental”. A julgar pelo seu silêncio até agora, Manuela Ferreira Leite prepara-se para nos fazer o “discurso do nu”.

Bastaram 2 anos de Euro (até 2003) para que os nossos políticos se dessem conta da cagada que tinham feito: já não podiam emitir moeda para incentivar o consumo criando a tal euforia económica de expansão em tempo de crise conjuntural (como está a fazer agora os Estados Unidos com o dólar), já não podiam desvalorizar a moeda para tornar as exportações competitivas numa determinada conjuntura de crise, já não podiam aumentar a despesa pública para alimentar a economia em tempos mais difíceis. Da tanga, passamos ao fio-dental e passaremos a andar nus. Quisemos fazer parte do clube dos ricos de um dia para o outro e entramos na penúria, porque os grandes não brincam em serviço e sacaram-nos a roupa do corpo.

Os países ricos da Europa deram-se ao luxo de enviar dinheiro a fundo perdido para Portugal para alimentar as grandes empresas dos países de onde vinha esse dinheiro, que passaram a vender os seus produtos para incorporar as obras públicas lançadas pelos sucessivos governos portugueses. A incorporação nacional na maioria das grandes obras realizadas em Portugal é baixa: basta ver a quantidade de empresas estrangeiras que participaram nas obras do metro do Porto para ficarmos a saber que a maioria do dinheiro a “fundo perdido” entrava em Portugal e saía logo a seguir. Esta foi uma forma das grandes economias europeias encontraram para apoiarem as suas próprias empresas. Ficamos com o metro do Porto, é certo, mas perdemos a oportunidade de incorporarmos muito mais “know-how” nacional, como fez Espanha nas suas obras financiadas. Ficamos com a obra feita, mas não soubemos fazê-la; aceitamos um peixe mas não aprendemos a pescar.

Entretanto, depois do NÃO irlandês, Sarkozy e Merkel desprezam os países pequenos da União Europeia (como a Irlanda, Grécia e Portugal) e concentram agora totalmente as suas atenções nos grandes países (Espanha, Itália, Polónia e Reino Unido). Mudaram as prioridades.

Portugal está a chegar a um ponto em que praticamente já não tem nada a perder, e portanto há que eleger gente que tenha a coragem de tomar medidas que protejam o interesse nacional, isto é, medidas que protejam o bem-estar mínimo do povo português. Se for necessário afrontar Bruxelas, que seja; se for necessário sair do Euro, que venha o velho Escudo; se for necessário o estreitamento das nossas relações com países não-amigos da União Europeia, paciência! Não podemos é continuar a ver a vida do povo a definhar para que as elites da política amiguista e da plutocracia estrangeirada tenham uma vida obscenamente flauteada.

Só existem dois partidos ― neste momento e até ver ― que podem fazer o que é necessário fazer: o PCP ou o PNR. O resto faz parte do problema e não da solução.

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