perspectivas

Quinta-Feira, 26 Junho 2008

Duas em três penadas

Arquivar em: Portugal — O. Braga @ 12:36 pm
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Tenho muita pena de ― ao discordar ― poder ferir susceptibilidades. Acontece hoje que discordar é insultuoso, mas estou-me nas tintas.

O meu filho mais velho tem 27 anos, faz 28 anos em 23 de Julho p.f. e casa-se a 25 do mesmo mês; na Igreja Católica, porque assim foi o seu desejo. Fez pela vida, licenciou-se, trabalha na sua área profissional no estrangeiro (pensem, carago!), e ganha mais do que eu alguma vez ganhei. Portanto, o preconceito de que a geração que se segue vive pior do que a anterior, pelo conhecimento próprio que tenho, não corresponde à verdade. O problema é onde se vive, nesta Europa que se diz dos europeus…

O meu filho mais novo também está a fazer pela vida, e eu apoio-o em tudo quanto posso. Um dia, falarei aqui na forma como eduquei os meus filhos. Ele é um dos melhores alunos da UNI de Aveiro na sua área, ainda não acabou o curso e já foi convidado por uma empresa alemã para estagiar na Alemanha depois do curso.

Queriam a União Europeia e o Euro? Aí os têm! Deleitem-se com a fuga dos melhores que a todos os portugueses custou formar ― e estamos ainda no princípio: Portugal, dentro de poucos anos, será a província transmontana da Europa…

Aqui, constatam-se os sintomas mas não se faz o diagnóstico. O que os políticos vêm dizer é o que interessa dizer, para que a “tropa” comece a ficar psicologicamente preparada para o pior — “pior” que não é de modo nenhum inevitável.

Reparem nesta frase:

Sabes, gostava de ter mais alunos/as como tu, mas, em vez disso, apanho com a massa amorfa que essa geração que tanto criticas educou.

A culpa não é da “geração Calimero”; é de quem a educou (??!!!). A “geração Calimero” nasceu sem culpa e sem pecado original; a culpa é sempre dos outros, e neste caso, de quem os educou.

Eu, que fui educado nos anos de Salazar e Caetano, que apanhei o 25 de Abril de 1974 e o processo de independência em África, e tive que vir para Portugal só com a roupa que tinha no corpo (e mais nada), não tive tempo para culpar quem me educou. Nem tempo nem espaço: era preciso bulir, furar, levantar muito cedo, deitar tarde, estudar à noite, criar os filhos, fazer esticar o dinheiro até ao fim do mês…

Hoje, existe muito tempo disponível para culpar toda a gente; segundo a opinião do Prof. politicamente correcto, temos uma geração (entre 18 e 30 anos) que é amorfa por culpa de quem os educou.

Casamento? Para quê? A gente junta-se, fornica-se, desresponsabiliza-se e separa-se porque há sempre um modelo mais recente para se fornicar.
Filhos? Para quê? Aborto é que é, que aquelas férias nas Caraíbas pagas a prestações não podem esperar!
As pessoas habituaram-se a um determinado estilo de vida, e de tal modo, que uma crise económica é encarada como o fim do mundo. Em vez de culparmos os outros, temos que questionar os valores da sociedade em que vivemos; se calhar, os valores dos nossos pais e avós não seriam assim tão maus; se calhar, não é o modelo mais recente de telemóvel e o carro da moda que trazem a felicidade; se calhar, é preciso pensar em Portugal como um destino colectivo, nem que tenhamos todos que fechar os olhos e votar no “diabo”.

3 Comentários »

  1. Faço 28 a 31 de Julho, e estou bem lixado comigo próprio, quanto mais com o país e com o rumo que isto está tomar.

    Comentário por Fenéco — Quinta-Feira, 26 Junho 2008 @ 3:12 pm

  2. Viva, Orlando! O meu filho mais velho também emigrou, após a licenciatura, e está melhor que eu. Preferia que não tivesse sido necessário nem para ele nem para mim, que também andei por fora porque o emprego que eu cá tinha não dava para garantir a educação dos filhos. Que não se pode culpar gerações, de acordo. Mas não vejo, de facto, outra saída para a geração dos nossos filhos que não seja a emigração. Ou a revolta… e essa passa por se ter bodes espiatórios. Há-os, e sabemos que os há. Percebo que não te consideres culpado, tão pouco eu, mas há muitos da nossa geração a quem, pela forma de estar e pelos valores que desenvolveram e transmitiram, se pode apontar o dedo. Ao fim e ao cabo, para a geração «Calimero», são eles (nós) os culpados, os «cotas». Tu e eu somos excepções, soubemos educar os nossos de forma a não fazer deles coitadinhos, mas convivo diariamente com os «calimeros» e sei que os valores que trazem lhes são transmitidos pelo «sistema» e nesse «sistema» os pais também estão incluidos.

    «Em vez de culparmos os outros, temos que questionar os valores da sociedade em que vivemos; se calhar, os valores dos nossos pais e avós não seriam assim tão maus; se calhar, não é o modelo mais recente de telemóvel e o carro da moda que trazem a felicidade; se calhar, é preciso pensar em Portugal como um destino colectivo, nem que tenhamos todos que fechar os olhos e votar no “diabo”.»

    Eu acho em geral os textos da Gotika bons, e já lhe sugeri mesmo que passasse tudo a livro pela Lulu.com. O diálogo entre gerações é bem-vindo, acho.

    Comentário por Henrique — Quinta-Feira, 26 Junho 2008 @ 7:53 pm

  3. Henrique: não podemos nunca culpar os velhotes, sejam eles “doutores” ou analfabetos. Culpar os velhos é fácil, e por muito mal ou por muito bem que os velhos tenham feito, são sempre um bode expiatório fácil. As pessoas têm vida própria e há que lidar com a vida conforme ela se nos apresenta. Os alemães têm uma palavra que resume a auto-vitimização”: Langeweile. Todas as gerações tiveram os seus problemas.

    Estou de acordo com a ideia de que se lute contra o “sistema”, mas sempre entendendo que o “sistema” é geral, é global, e não da responsabilidade de uma só geração.

    Comentário por O. Braga — Quinta-Feira, 26 Junho 2008 @ 8:32 pm


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