perspectivas

Quarta-feira, 25 Junho 2008

O Novo Guru — A Crítica a Kant

Arquivar em: cultura — O. Braga @ 1:49 pm
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Deleuze “namorando” Guattari

Estive a “refolhear” “A Filosofia Crítica de Kant” de Gilles Deleuze, edição de 1991 das Edições 70 ― colecção “O Saber da Filosofia” com tradução de Geminiano Franco ― um opúsculo manhoso, sem ISBN, de tipo “sebenta” universitária e que, a crer na dedicatória, me foi oferecido em 1993.
Sendo que Deleuze sempre defendeu a acção e desprezou ostensivamente a retórica (nomeadamente dos neopositivistas da teoria da linguagem), fiquei a pensar na imaginação imaginativa a que Deleuze recorreu para elaborar a retórica da sua teoria. Já na altura achei a crítica de Deleuze a Kant como a de alguém que se põe em bicos-de-pés, de péssimo mau gosto e de elaboração simplista, mas nunca pensei que ele fosse levado tão a sério, como parece ter sido.

A crítica de Deleuze a Kant faz lembrar o crítico literário que em vez de criticar o que uma determinada obra expressa, critica aquilo que ele diz que a obra não expressa, quando aquilo que “a obra não expressa” é subentendível na obra e o crítico fez de conta que não entendeu.

Deleuze parte de um erro: o princípio absoluto de que o conhecimento objectivo só pode ser determinado pela experiência. Kant tinha ― já no século 18 ― partido do princípio de que o conhecimento existe independentemente de o Homem o descobrir ou não, e que a experiência humana é o caminho (ou a forma, ou o método) para chegar até ele, sendo que os limites da razão existem demarcados na aventura do conhecimento humano.

Deleuze, por seu lado, encara o conhecimento como algo que não existe de uma forma objectiva até que o Homem (em acção conjunta com a natureza) determine esse conhecimento ― quando Deleuze defende o princípio de que as ideias só são determináveis no que diz respeito aos objectos de experiência. A visão materialista e terracêntrica de Deleuze não permitiu (ou não lhe dava jeito) que ele colocasse sequer a hipótese de o Homem trilhar o caminho da descoberta de algo que já existisse antecipadamente ― assim como os navegadores europeus que descobriram o novo mundo não determinaram esse novo mundo como se este não existisse anteriormente. Imaginemos um navegador quinhentista que afirma, enfaticamente: “descobri uma terra que não existia!” Grosso modo, é este o princípio deleuziano sobre o conhecimento: as coisas só existem depois de descobrirmos, pela experiência, que elas existem. Deleuze faz lembrar aquela ideia da estória que nos conta que se não existir um homem na floresta, não existe o ruído de uma árvore que tomba porque ninguém o pode ouvir.

Deleuze diz que “as ideias não são determináveis por si próprias mas somente em relação a objectos de experiência”. Deleuze não se lembrou de invocar os meninos-prodígio, como Mozart que compôs as suas primeiras obras musicais aos 3 anos de idade. Com 3 anos de idade, que experiência teria Mozart para determinar as suas ideias? Ou será que a música de Mozart, com 3 anos de idade, não era um “objecto da sua experiência”? Numa altura em que as investigações científicas (na área da parapsicologia) sobre os meninos-prodígio evoluem nos Estados Unidos (onde mais poderia ser?), Deleuze torna-se cada vez mais obsoleto; mas os radicais da Utopia continuam a manter Deleuze ligado a um ventilador.

Deleuze encarou o Conhecimento humano como a montagem de peças de um puzzle, em que cada peça que encaixa dá o sentido às peças que já foram encaixadas e, por outro lado, determinam o sentido das peças que venham a ser encaixadas a seguir, dando assim um sentido final à solução do puzzle. Mas para Deleuze, o facto de a ideia do puzzle poder existir já montado antes do ser humano se aventurar a juntar as peças, não lhe passa pela cabeça.

A ideia kantiana é de que o puzzle do Conhecimento pode ser montado de várias maneiras, e quanto mais complexo é o puzzle mais formas (caminhos, intuições, deduções e induções) existem para o montar; mas mesmo a complexidade da montagem do puzzle acompanha o princípio da existência prévia do puzzle (“a priori”), isto é, não é independente dele.

Enquanto Deleuze recusa a transcendência das ideias, Kant define o princípio transcendental da ideia (“a priori”) como fazendo parte do puzzle do Conhecimento, fazendo a distinção entre a ideia “a priori” (aquela de que não necessitamos de experimentar para comprovar) e as ideias que o ser humano desenvolve através da experiência mas que já faziam (também) parte do complexo puzzle do Conhecimento. Kant afirmou que não há nada que possamos pensar ou imaginar ou sonhar que não exista já em qualquer sítio do espaço-tempo universal; Leibniz foi mais longe quando afirmou que tudo o que existe se baseia numa ideia que tem uma lógica que não obedece a critérios humanos, mas que os humanos intuem e deduzem. Deleuze, pelo contrário, afirmou que as ideias não transcendem a experiência possível do ser humano, isto é, para além do sonho onírico, a que Deleuze chama de “mundo virtual”, as ideias são um produto da experiência, e portanto, podemos concluir que, segundo Deleuze, o Conhecimento Universal só passa a existir com a experiência humana. Esta ideia só poderia vir do típico chauvinismo francês.

Ler Deleuze é um sacrifício enorme dada a sua pobreza argumentativa e a necessidade sistemática que ele teve de rebuscar a esterilidade ideológica da sua lavra para pretender fazer alguma diferença.

A ler: Deleuze, o Novo Guru

(continua)

1 Comentário »

  1. [...] A ler : O Novo Guru — A Crítica a Kant [...]

    Pingback por O novo Guru « perspectivas — Quarta-feira, 25 Junho 2008 @ 9:54 pm


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