SEGUNDO / VIRIATO
Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.
Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.
Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é ja o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
Fernando Pessoa
Censura a Fernando Pessoa! Já!
Ver a minha opinião aqui.
Adenda:
Portugal nunca teve uma raça: os lusitanos eram uma mistura de celtas, iberos — e dizem que existiu mistura com os Neandertais. Depois, vieram os romanos; os suevos, os visigodos, os vândalos; mais tarde os árabes, judeus, etc. Falar em “raça” — como Fernando Pessoa o fez — faz apelo à nacionalidade, e nunca a uma “raça portuguesa” que não existe nem nunca existiu, e Pessoa sabia-o melhor que ninguém. A “raça” é o povo, e o povo constitui a nação; a raça brasileira é a mestiçagem que os portugueses levaram para lá; também existe raça no Brasil: a raça do povo do samba e do candomblé.
Quem critica a “raça”, segundo o conceito de Fernando Pessoa, deveria assumir, de uma vez para sempre e sem rodeios ou hipocrisia, a sua aversão à nacionalidade. Ficava tudo mais claro.




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