perspectivas

Terça-feira, 10 Junho 2008

Ainda sobre a “raça”


T. Pascoaes

Penso que Cavaco Silva confundiu “raça” com “nacionalismo” — ou melhor, existe gente que confunde propositadamente os dois conceitos, os quais, através da História, assumiram uma coincidência ideológica e semântica. Desta vez, vou em socorro de Cavaco.

Fernando Pessoa dividiu o nacionalismo em três tipos:

  1. O nacionalismo tradicionalista.
  2. O nacionalismo integral — Pascoaes.
  3. O nacionalismo sintético.
  • O primeiro é o que faz consistir “a substância da nacionalidade em qualquer ponto do seu passado”, isto é, os nacionalistas tradicionalistas só vêem o futuro em função do passado.
  • O segundo — que é o meu “nacionalismo” — consiste em atribuir a uma nação determinados atributos psíquicos, na permanência dos quais — e fidelidade social aos quais — reside a vitalidade e a consistência da nacionalidade. O nacionalismo integral não se apoia na tradição, mas num psiquismo colectivo concebido como determinado e em que essa tradição se apoiou para existir.
  • O terceiro consiste em atribuir a uma nacionalidade, não uma tradição nem um psiquismo especifico, mas um modo especial de sintetizar as influências do jogo civilizacional, isto é, a uma idiossincrasia passível de mutação.

Fico sem saber a qual dos três “nacionalismos” Cavaco Silva se referiu — porque não me passa pela cabeça que ele tenha querido dizer outra coisa. O sentido da “raça”, conforme colocado aqui, não deve ser interpretado ad lettera, como se de uma raça animal se tratasse, mas de um princípio de nacionalidade, isto é, um nacionalismo.

23 Comentários »

  1. Tempos houve em que a Humanidade, no seu percurso histórico, tinha defensores, com pretensas bases científicas, de que a Humanidade estava dividida em “raças”, umas superiores, outras inferiores, cada uma a defender a sua própria superioridade (se tivesse poder para isso!) e que culminou na defesa agressiva da superioridade da “raça” ariana, com Hitler, com muito sofrimento para todos. A Humanidade evoluiu e, hoje, a base científica e de qualquer um de boa-fé, é que há povos com características diferentes, culturas e civilizações diferentes,mas todos comummente Humanos. Falar, hoje em dia, no ocidente, de “raça” de um povo (o português), como fez Cavaco Silva, revela um nacionalismo serôdio, uma falta de visão histórica sobre a actualidade e um regresso a uma linguagem do passado com conotações fascistóides e selectivas dentro do próprio povo português. Por isso Cavaco fez tanto apelo, também, à formação de “elites” (de “raça” diferente?). Cavaco Silva, de uma penada, destrói uma conquista civilizacional do ocidente e, embora atrasada, de Portugal: o Estado de Direito e a Cidadania.

    Comentário por Victor Rosa de Freitas — Terça-feira, 10 Junho 2008 @ 11:13 pm

  2. Arranjem-se as justificações que se quiserem, é imperdoável que um Presidente da República profira frases deste género. Vergonhoso!!!

    Comentário por Peixoto — Quarta-feira, 11 Junho 2008 @ 4:31 pm

  3. VIRIATO

    Se a alma que sente e faz conhece
    Só porque lembra o que esqueceu,
    Vivemos, raça, porque houvesse
    Memoria em nós do instincto teu.
    Nação porque reincarnaste,
    Povo porque resuscitou
    Ou tu, ou o de que eras a haste –
    Assim se Portugal formou.
    Teu ser é como aquella fria
    Luz que precede a madrugada,
    E é já o ir a haver o dia
    Na antemanhã, confuso nada

    Fernando Pessoa

    Vamos proibir o ensino de Fernando Pessoa nas escolas? Aposto que há gente que adoraria que isso acontecesse.

    Naturalmente que Pessoa não era racista — pelo contrário, foi contra o Estado Novo e contra Hitler. A questão é a de não sermos obrigados a fazer o jogo da esquerda marxista cultural (Bloco) que pretende manipular as palavras no sentido de eliminar uma identidade histórica. “Raça” não tem, necessariamente, que ter uma conotação racista, mas pode ter uma conotação nacionalista.

    É irónico como há gente que critica o Bloco de Esquerda e faz exactamente — milímetro a milímetro — o seu jogo político. A vitória do marxismo cultural é inexorável. Parabéns ao Bloco!

    Comentário por Orlando — Quarta-feira, 11 Junho 2008 @ 7:06 pm

  4. [...] Ver a minha opinião aqui. [...]

    Pingback por A Esquerda irá propor o banimento de Fernando Pessoa? « perspectivas — Quarta-feira, 11 Junho 2008 @ 7:22 pm

  5. Portugal nunca teve uma raça: os lusitanos eram uma mistura de celtas, iberos e dizem que existiu mistura com os Neandertais.Depois, vieram os romanos; os suevos, os visigodos, os vândalos; mais tarde os árabes, judeus, etc. Falar em raça — como Fernando Pessoa o fez — faz apelo à nacionalidade, e nunca a uma “raça portuguesa” que não existe nem nunca existiu, e Pessoa sabia-o melhor que ninguém. A “raça” é o povo, e o povo constitui a nação;a raça brasileira é a mestiçagem que os portugueses levaram para lá; também existe raça no Brasil: a raça do povo do samba e do candomblé.

    Quem critica a “raça”, segundo o conceito de Fernando Pessoa, deveria assumir, de uma vez para sempre e sem rodeios ou hipocrisia, a sua aversão à nacionalidade. Ficava tudo mais claro.

    Comentário por Orlando — Quinta-feira, 12 Junho 2008 @ 6:33 am

  6. Fernando Pessoa viveu “antes” da 2ª Guerra Mundial (1888-1935), altura em que toda a gente falava de “raças” humanas, que Hitler bem potenciou e que teve tradução no “apartheid” da África do Sul e que só desapareceu no último quartel do séc. XX. Se se quer falar do brio, do pundonor, das características afirmativas e nacionalistas dos portugueses, que se fale da “alma” portuguesa, pois a palavra “raça”, historicamente, tem as tais conotações que se pretendem imputar a uma cultura de esquerda, mas que, afinal, foi (e é) rejeitada por toda a Humanidade consciente. Há que precisar a linguagem e respeitar o seu enquadramento histórico, para se evitarem equívocos e aproveitamentos políticos, quer da esquerda cultural marxista, quer duma certa extrema-direita serôdia e sempre caceteira.

    Comentário por Victor Rosa de Freitas — Quinta-feira, 12 Junho 2008 @ 5:19 pm

  7. Fernando Pessoa viveu depois de D. Manuel II ter expulso os judeus de Portugal. Ele, Pessoa, sabia da sua ascendência judia, e sabia o que era o racismo, seja baseado na cor da pele, seja em simples etnia: ele foi educado na África do Sul onde já na sua época existia o “apartheid” . Portanto:

    - se Fernando Pessoa não era racista;
    - Se Fernando Pessoa falou em “raça” portuguesa;

    logo ===>

    – Fernando Pessoa atribuiu o significado de “raça” a uma nacionalidade, a uma idiossincrasia, e/ou a um nacionalismo integral (segundo Pascoaes). Não temos motivo nenhum para afirmar que Cavaco não terá usado do mesmo critério, ou então, a nacionalidade é intrinsecamente negativa, e assuma-se isso.

    Comentário por Orlando — Quinta-feira, 12 Junho 2008 @ 10:23 pm

  8. Infelizmente, há muito racismo real e sentido, escondido e encapotado por detrás do conceito de “raça” portuguesa…no inconsciente colectivo desta…ou no que é dito em privado e que não é dito em público, por força do “politivamente correcto”…

    Comentário por Victor Rosa de Freitas — Quinta-feira, 12 Junho 2008 @ 11:47 pm

  9. Ainda agora vi alguns negros a desfilar nas marchas de Santo António. Eles também fazem parte da “raça portuguesa” = cultura, idiossincrasia, nacionalidade, língua, comunidade que prepara um futuro colectivo.

    Comentário por Orlando — Quinta-feira, 12 Junho 2008 @ 11:53 pm

  10. Há sempre gente que se adapta a tudo. Calculo o que sentirão, no seu íntimo, “alguns negros” a desfilar (ou a ver outros negros a desfilar) nas Marchas de Santo António…a lembrarem-se da cultura da “raça negra”…ou da “negritude”, como dizia Savimbi!

    Não é provocação!

    Lá porque Sidney Poitier é um negro-”branco” na América, não significa que nesta, hoje em dia, ainda não exista racismo com reminiscências do Klu-Klux-Klan!

    O combate ao racismo (para quem o quer combater MESMO!) passa pela crítica, SEMPRE também, hoje em dia, à palavra “raça” aplicada a qualquer povo ou etnia.

    Comentário por Victor Rosa de Freitas — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 12:17 am

  11. “O combate ao racismo (para quem o quer combater MESMO!) passa pela crítica, SEMPRE também, hoje em dia, à palavra “raça” aplicada a qualquer povo ou etnia.”

    Não concordo. Esta é uma atitude multiculturalista, paternalista e politicamente correcta.

    O combate à SIDA não passa por fazer de conta que o vírus do HIV não existe.

    As raças — no sentido de etnia, e não já no sentido do nacionalismo pessoano — existem, e a melhor forma de lidar com a diferença não é fazendo de conta que a diferença não existe. Antes de tudo, a verdadeira acção pedagógica é fazer sublinhar as diferenças aliadas aos valores das “diferentes diferenças” — os valores e as qualidades não estão todas só de um lado de uma raça. Depois, há que valorizar a nossa cultura, respeitando a cultura dos outros (as duas coisas são indissociáveis: quando não respeitamos a cultura dos outros, não valorizamos a nossa). O racismo, hoje, é eminentemente cultural. Quando começamos a ver valores na outra raça (no sentido antropológico geral: cultura, características físicas, psíquicas, societais, etc.) , só aí o racismo acaba. Proibir, escamotear ou criticar a utilização de uma palavra não leva a nada.

    Disclaimer: note-se que “raça” não é o mesmo que “estilo-de-vida” ou “comportamento sexual”. Qualquer confusão deste tipo não pode ser honesta.

    Comentário por Orlando — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 12:39 am

  12. Adenda: da mesma forma que Portugal integrou na sua raça iberos, celtas, godos, suevos, romanos, árabes, judeus, etc., também pode integrar africanos, asiáticos, etc.Quando digo “integrar”, é integrar mesmo, e não criarem-se guetos em nome de um multiculturalismo. O futuro da nação portuguesa será sempre o que resultar da sua raça — africanos e asiáticos incluídos.

    Não é possível defender a continuidade de uma nação defendendo a existência de ilhas culturais heterogéneas, a não ser que desemboquemos no paradoxo espanhol (Espanha não é uma nação: é um aglomerado de nações).

    Esta é a essência do nacionalismo integral de Teixeira de Pascoaes.

    Comentário por Orlando — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 12:58 am

  13. Volto a dizer o que já afirmei no meu blogue sobre o Presidente da República e a “raça” portuguesa:

    “Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”.

    (Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República Portuguesa, no dia 10 de Junho de 2008).

    Raça têm os animais irracionais, que reagem a certos instintos da mesma maneira e que têm certas características físicas que os distinguem dos outros animais irracionais.

    Os seres humanos são os únicos animais que possuem inteligência e LIBERDADE para superar os instintos e as características animais e tornar-se, cada um, um ser irrepetível e distinto dos outros, de modo a tornar-se cidadão do seu país e membro da comunidade Humana no seu todo e não de uma qualquer “raça”.

    Ao referir-se à “raça” do povo português, à “raça” de Camões, à “raça” das comunidades portuguesas, o PR está a reduzir os portugueses a uma raça de animais irracionais, com os seus instintos animais característicos, distintos das outras “raças” humanas.

    Está a fazer de todos nós, portugueses, não cidadãos conscientes e responsáveis – que até votam na escolha dos seus representantes políticos, incluindo o PR – mas uma raça de animais irracionais, no topo do qual se encontra ele, PR.

    Não me revejo nesta linguagem do PR, nem me revejo nele como “chefe” desta raça de animais irracionais.

    Respeito o PR enquanto mais alto magistrado da Nação portuguesa, enquanto constituída por cidadãos com uma história comum, com uma língua comum, com uma cultura comum, que ele representa, ao mais alto nível, quer interior, quer exteriormente.

    Mas há que repudiar uma linguagem que faz apelo a um nacionalismo instintivo, animal e irracional e nos coloca como um bando e uma raça de animais irracionais dentro de um território e espalhado em comunidades por todo o mundo, a comemorar, pretensamente e em bando, a nossa “raça” contra as outras “raças” dos outros povos.

    Pois, nos Humanos, “raça” há só uma, a HUMANA E MAIS NENHUMA!

    Comentário por Victor Rosa de Freitas — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 1:13 am

  14. Vejo que o amigo Rosa de Freitas diz (implicitamente) que Fernando Pessoa foi um racista. Registo, mas não concordo. Falta saber aqui quem parte de um “preconceito negativo” (que é aquele preconceito que não admite discussão, o preconceito-tabu; o “preconceito positivo” é aquele aberto à discussão).

    Não sei se foi essa a intenção do PR ao dizer o que disse; ainda não ouvi nenhuma explicação da parte dele; mas se ele der uma explicação que justifique a sua (dele) noção pessoana de “raça”, nada tenho a opor ou a criticar.

    Comentário por Orlando — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 1:19 am

  15. Não, meu amigo, NÃO digo que Fernando Pessoa era “racista”. Digo que ele (e note que tinha grandes ligações à linguagem maçónica, que o meu amigo detesta, se bem entendi mensagens suas anteriores) usava a linguagem do seu tempo para tentar “amortizar” aquilo que os conceitos na altura em voga punham em relevo: que o lado “animal” dos povos e etnias, os instintos básicos destes é que eram fundamento de mais ou menos “desenvolvimento”, de mais ou menos “civilização”, de mais ou menos “cultura”, de mais ou menos “poder”.

    FP fez coincidir, no seu tempo, a palavra “raça” com um nacionalismo “sadio”.

    Hoje em dia, a linguagem e o conhecimento antropológico e científico já não permitem que tal “linguagem” seja usada sem a sua conotação histórica (e biológico-animal).

    Não confundamos as coisas.

    Comentário por Victor Rosa de Freitas — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 1:31 am

  16. A) Fernando Pessoa era tudo menos mação. Conhecia a maçonaria porque lhe interessou saber, mas criticou a maçonaria em várias ocasiões. Existe a ideia generalizada de que Pessoa pertenceu à maçonaria, mas é uma ideia errada — a julgar pelas críticas que ele teceu à maçonaria. Ser “ocultista” não é a mesma coisa que ser “mação”. Foi boa ideia lembrar isto, porque irei publicar as diversas passagens em prosa que ele escreveu contra as práticas maçónicas.

    B) Michaelis — Moderno Dicionário da Língua Portuguesa :

    Raça : 1. (do latim ratio) Conjunto de ascendentes e descendentes de uma mesma família ou de um mesmo povo. 2. Estirpe, geração, casa, brasão. 3. Cada uma das grandes famílias em que se costuma dividir a espécie humana.

    C) Não confundir “espécie humana” com “raça”. Espécie humana há só uma; felizmente — e como seria monótono se assim não fosse — raças há muitas, e culturas também. A julgar pela definição do dicionário, cada família portuguesa constitui uma “raça”, no sentido de síntese (ratio) de uma estirpe.

    Se assim não for, para além de abolirmos Pessoa do ensino politicamente correcto, vamos ter que aplicar o lápis azul nos dicionários. Há muito complexo político metido nisto.

    Ser de — ou pertencer a — uma determinada raça (ou cultura), seja ela qual for, não é vergonha nenhuma. O marxismo cultural convenceu-nos do contrário, tenta a nossa lobotomização ideológica, incute-nos o princípio da culpa pelo passado histórico, quando a História não é mais do que a súmula de um milenar encontro de culturas e respectivas raças, nem sempre tolerante de parte a parte; o marxismo cultural diabolizou a palavra raça, vitimizou algumas raças e culpou outras raças, divide para reinar. Ser negro, branco, amarelo, vermelho, etc., não é vergonha nenhuma. Vergonha é — em nome de uma utopia negativa — criarmos, através do multiculturalismo, sociedades de um apartheid moderno e politicamente correcto, em que várias raças coabitam sem se tocarem (como acontece em Lisboa).

    Por isso, não é a palavra “raça” que tem que ser escrutinada e denunciada; é antes uma visão ideológica marxista da História que tem que ser exposta à crítica, coisa que não foi feita até hoje sem preconceitos negativos (tabus).

    Comentário por Orlando — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 6:07 am

  17. [...] Relacionado com este post: Ainda sobre a “raça” [...]

    Pingback por Vamos ter que proibir os livros de Mia Couto « perspectivas — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 6:57 am

  18. Cito:

    “A julgar pela definição do dicionário, cada família portuguesa constitui uma “raça”, no sentido de síntese (ratio) de uma estirpe.”

    Teremos que concluir que, afinal, o PR sempre se enganou: não devia ter falado da “raça” portuguesa, mas das “RAÇAS” PORTUGUESAS.

    O que seria MUITO MAIS GRAVE por atentar directamente e frontalmente contra a CIDADANIA, porque se ligaria, necessariamente, certas “raças” a certa “elites”, certas “raças” a cidadãos de 1ª, outras “raças” a cidadãos de 2ª,”raças” de capitalistas e financeiros e “raças” de operários e pobres, etc., etc., etc.

    Caro amigo Orlando: salvo o devido respeito, por mais voltas que dê para tentar “salvar” o Cavaco, o seu ponto de vista só vai agravando a questão…

    Não é preciso nenhum “lápis azul” sobre Fernando Pessoa e os seus heterónimos. O que é preciso é, APENAS, localizá-lo historicamente, bem como qualquer individualidade, em qualquer campo do saber ou da arte.

    É que o mundo move-se, o percurso da Humanidade também e a História retrata-o.

    E a Humanidade vai evoluindo em conhecimentos e em objectividade, vai acumulando saber, vai desfazendo preconceitos (e arranjando outros), vai mudando conceitos, mas tem uma EVOLUÇÃO HISTÓRICA.

    Há conceitos (independentemente do valor dos seus intérpretes) que tiveram o seu momento histórico e que estão mortos, o que não quer dizer que não se estudem.

    A “teoria das esferas” do Grande Aristóteles dominou o pensamento, pelo menos do mundo ocidental, até cerca do séc. XVI, com o surgimento da moderna ciência. Aristóteles não deixa de ser Grande e, por isso, estudado, mas tal teoria é, hoje em dia, risível para qualquer miúdo da escola primária.

    Não há, da minha parte, qualquer menosprezo pela Grandeza de Fernando Pessoa. Localizê-mo-lo, porém, no seu contexto histórico, com o que a Humanidade sabia (ou julgava saber) no seu tempo.

    Nada mais!

    Comentário por Victor Rosa de Freitas — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 9:03 am

  19. Adenda: com tudo o que disse, nunca afirmei que, em qualquer sociedade, não haja racismo. Os preconceitos e explicações antigas perduram durante muito tempo após o conhecimento objectivo e isento que leva à “destruição” daqueles. Mas não tentemos explicar que há racismo porque há “raças” humanas. Ainda há quem pense assim, mas sem qualquer base científica, ao contrário do que, pretensamente, se pretendia, no tempo de Fernando Pessoa (em que Freud procurava desvendar o “inconsciente” e explicar qualquer “trauma” psíquico através da “libido”, o marxismo explicava tudo através da “infraestrutura” das relações de produção que determinava todo o pensamento ou “superestrutura”, em que o colonialismo se explicava e se justificava pela necessidade de “civilizar” outras “raças” menores, tudo para ocultar uma verdade inquestionável: a ambição humana sem limites e o “thymos” platónico agressivo do ser humano).

    Comentário por Victor Rosa de Freitas — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 9:29 am

  20. Caro VRF, talvez por deformação profissional, estará habituado a dar a última opinião — o que não é, em si, criticável :smile: ; contudo, a última opinião terá que ser razoável (razão).

    Uma nação é uma síntese (1). A raça portuguesa é a síntese. A raça portuguesa é a nação. Não fujo daqui nem um milímetro.

    (1) Só pode ser sintetizado o que é passível de homogeneização; não podemos sintetizar contrários ou elementos que se opõem. Por isso, todos os contributos culturais, étnicos e outros, são bem-vindos no sentido de se programar a síntese futura da nação, isto é, da raça.

    Acho uma injustiça que se coloque Fernando Pessoa ou Camões “em contexto histórico”, só porque meia dúzia de iluminados pretende reescrever a História. Do pós-modernismo, resultou que cada um passou a ver a História como quis — e daí não veio mal ao mundo. O problema actual é o Presentismo: a imposição de um pensamento único e de uma visão única da História, que as pessoas absorvem inconscientemente. Deste Presentismo, faz parte o conceito de “Evolução Histórica” (ler Olavo de Carvalho):

    Toda e qualquer identidade nacional que signifique alguma coisa na realidade, que não seja só um mito oficial, funda-se na consciência histórica transmitida e reforçada de geração em geração, bem como nos valores tradicionais que essa História incorpora e simboliza.

    A “evolução histórica” não significa “evolução histórica que convém para atingir objectivos políticos”. Por outro lado, quando a evolução histórica significa evolução ideológica, ficamos sempre de pé-trás, porque em nome da evolução histórica cometeram-se as maiores injustiças e barbaridades no decorrer do século 20.

    Um dos traços constitutivos da mentalidade revolucionária é a compulsão irresistível de tomar um futuro hipotético – supostamente desejável – como premissa categórica para a explicação do presente e do passado. Nessa perspectiva, a história humana é vista como o trajeto linear – embora entrecortado de abomináveis resistências – em direção ao advento de um estado de coisas no qual o curso total dos acontecimentos encontrará sua consumação e sua razão de ser.

    Uma coisa é o conhecimento cientifico, outra coisa é o senso-comum. O tipo de argumento de Aristóteles pode servir para muita coisa, incluindo legalização da Pedofilia. É preciso ter cuidado com as falácias de Parménides.

    Comentário por Orlando — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 9:33 am

  21. Caro Orlando:

    Não me considero revolucionário, mas, muito pelo contrário, defensor de um certo conservadorismo. Conservadorismo que assenta na “tradição”, no saber acumulado de geração em geração. O revolucionarismo tem a ver com “rupturas” de dão um salto (qualitativo?) sem base sólida de apoio, a não ser pretensas afirmações de saber e sínteses históricas que, mais tarde ou mais cedo, se revelam falácias.

    Desculpe, meu caro amigo, mas não vejo como o exemplo das “esferas” de Aristóteles tenha algum ponto de contacto com a defesa da pedofilia (trata-se de um raciocínio demasiado “revolucionário” para o meu “tradicionalismo” :) .

    Há certos valores éticos que são perenes, independentemente do seu momento histórico, o que não invalida que certas proposições éticas não devam ser analisadas historicamente, sob pena de se negar qualquer evolução do saber e do aperfeiçoamento humano no seu relacionamento intersubjectivo.

    Como não quero ter sempre a última palavra (e, na minha “deformação profissional”, sempre a defesa teve a última palavra e não a “acusação” que eu representava), vou-me calar

    Meu caro amigo!: esta conversa (como qualquer outra) tem pano para mangas e o meu amigo dá “luta”, sempre dentro dos bons princípios de respeito mútuo. Apesar das nossas divergências é sempre um gosto “falar” consigo.

    A palavra é sua.

    Comentário por Victor Rosa de Freitas — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 5:57 pm

  22. É óbvio que o propósito de “banir a palavra raça”, e “colocar Pessoa em contexto histórico”, nada tem de tradicionalismo. Confio no bom-senso do júri para constatar o óbvio. O ódio que eu tenho a Nietzsche é perfeitamente justificado: criou de tal forma vírus permanentes na sociedade do século 20, que esta já não vive sem antibióticos. Provavelmente, sem Nietzsche (e o darwinismo aplicado na área social), a segunda guerra não teria os contornos que teve e não estaríamos hoje a discutir os recalcamentos da História.

    A teoria das esferas de Aristóteles é uma teoria científica, que valeu ontem e não vale hoje, como todas as teorias científicas. Contudo, de Aristóteles ainda vale a Ética, que não é uma teoria científica, e que defende a justiça como a maior virtude escorada no justo-meio. Ora, o justo-meio é a negação do radicalismo, de um lado e doutro. O justo-meio aconselha que o racismo seja debelado, não por imposição sancionatória e totalitarizante, mas usando a razão.

    Voltamos ao princípio: ou se é pela nação, ou não. No primeiro caso, há sempre uma raça que é a síntese da nação; e pelo facto de se admitir que as raças existem (porque é admitir a realidade), não significa que alguém seja racista; pelo contrário, as atitudes paternalistas de esquerda para com os “coitadinhos” das “raças inferiores” que “precisam de protecção” são a forma de racismo mas detestável e degradante.

    Nem tudo o que brilha é ouro.

    Comentário por Orlando — Sexta-feira, 13 Junho 2008 @ 6:46 pm

  23. [...] monárquico por uma questão de sentido prático e por ser nacionalista ― “nacionalista integral” no sentido defendido por Teixeira de Pascoais, e não no sentido tradicionalista. Numa altura em [...]

    Pingback por Nacionalista integral « perspectivas — Quarta-feira, 20 Agosto 2008 @ 4:40 pm


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