perspectivas

Quinta-Feira, 5 Junho 2008

“Comments off” or “rest my case”?

Arquivar em: Portugal — O. Braga @ 3:14 pm
Tags: , , , , , ,

No velho charco

Uma rã saltou

O barulho da água

(haiku búdico)

Este blogue “salta o barulho da água” e fecha os comentários. O email fica à V/ disposição.


Ao longo de um ano, falei neste local de algumas ideias. Salvo parcas excepções que reconheço e agradeço, o tipo de comentários que recebi a cada postal, ou foi de discordância sem argumentos e utilizando sistematicamente o ataque pessoal, ou de gente que parece que não entende nada do que escrevo. Pode ser defeito meu. Por vezes, dá-me a sensação que as pessoas querem saber coisas, mas não sabem como saber as coisas; é um pouco com alguém que procura um caminho numa floresta de ideias mas anda de olhos vendados, prossegue às apalpadelas praguejando contra os obstáculos que lhe surgem no caminho, em vez de tentar retirar a venda.

Este blogue tem um ano de existência e teve neste período mais de 90 mil visitas. Noventa e nove por cento das visitas tiveram origem nos motores de busca, e não na blogosfera, o que significa que a blogosfera portuguesa não está sintonizada comigo, e vice-versa. Do mal, o menos. Tenho feito um esforço para reduzir a complexidade do discurso e da composição ideológica dos textos de forma a que estes sejam apreensíveis por muita gente, mas quando o faço, em função de um esforço de simplificação dos conceitos, chamam-me de “ignorante” e de adjectivos quejandos ― isto é: se os conceitos são complexos, ninguém comenta porque eventualmente não sabe o que comentar, e quando os conceitos são reduzidos à sua máxima simplicidade coerente, sou insultado. Os comentários moderados não resolvem o problema do impacto psicológico que o insulto sistemático, gratuito e irracional sempre causa em quem o recebe. Já pensei em dedicar-me a outro “hobby”, mas isso seria uma injustiça para os 2% de comentários pertinentes que recebo.

O blogue é um “modo de vida” ― no sentido lúdico e cultural ― e não um “modo de morte”, no sentido da alienação à superficialidade ideológica. Para falar das coisas do dia-a-dia, não preciso de um blogue: vou até ao café da esquina, sento-me na mesa do costume e entro em amena cavaqueira sobre “isto e aquilo”. É certo que a minha concepção de “blogue” não coincide com o da maioria ― mas o que posso fazer?

Sob o ponto de vista político, sou um conservador (ver compasso político) e sempre fui; não se trata de um arremedo serôdio de quem se adianta na casa dos quarenta: o conservadorismo racionalizado existe em mim desde que me conheço. Contudo, um conservador é, cada vez mais, uma “avis rara”, alguém que parece já não pertencer ao “mainstream” social.


Vivemos num tempo da prevalência do “selvagem moderno”, em que as pessoas vivem “sem culpa” e sem pecado original, mas culpam sistematicamente os outros. Como o “bom selvagem” moderno não escrutina qualquer tipo de culpa no seu comportamento, e em função da ideia de pureza original do seu pensamento, procede irracional e atrabiliariamente contra quem, involuntariamente, ameace a concepção da sua inocência primordial. A irresponsabilidade inocente do selvagem moderno encarna o espírito do libertário ― de esquerda ou de direita ― que assume uma total amnésia histórica, e o “Homem Novo” preconizado pelo Libertarismo é essencialmente alguém sem culpa endógena que atribui a culpa de tudo o que lhe acontece aos outros e à História.

Já não temos os históricos analfabetos sem terra de há quarenta anos, mas temos os actuais analfabetos funcionais sem História. Passamos de um regime totalitário clássico e elitista no acesso à cultura, para um totalitarismo da massificação cultural medíocre em nome da primazia da estatística ficcionada que faz a apologética do sistema. De um corporativismo social nacionalista, passamos a um maoísmo cultural da exaltação do leviatão, em que o “bom selvagem” moderno goza da plena liberdade garantida pela ditadura dos números e das ideias correctas. Da privacidade da família de há 40 anos, passamos para um marxismo moderno e plutocrata, em que a vida pública nos invade e nos controla, onde fora dela já não há salvação porque já não há cidades, mas somente muros que condicionam e controlam a nossa actividade, em regime de internato permanente e numa instabilidade voluntariamente assumida pelos internados que auto-delimita milimetricamente a sua segurança, espaço público que só deixamos quando vamos dormir umas horas. De uma sociedade regida por um medo definido em relação a um poder definido mas com um combustível moral universal, passamos a uma outra que se rege por um medo indefinido em relação a um poder indefinido e de moral relativista que se pulveriza a cada momento que passa. Da identidade nacional, passamos ao anonimato internacional; já não somos um bilhete de identidade, com fotografia e data de nascimento; passamos antes a fazer parte de uma nomenclatura abstracta e virtual cavada na irracionalidade da razão escorada no mito. Só falta uma grande muralha para que a realidade do leviatão se possa consumar.

Por tudo isto, é bom ser o sapo que salta o barulho da água.

Blog em WordPress.com.