O Materialismo Histórico
O Materialismo Histórico, segundo Marx, é essencialmente baseado no conceito de “consciência de classe”, que segundo os marxistas, surgiu com o proletariado da revolução industrial. Antes do proletariado, segundo Marx, não existia a “consciência de classe”.
Assim, o verdadeiro e único “sujeito da História”, isto é, o verdadeiro protagonista da História, é a “consciência de classe”. Quando o proletariado ganha consciência de si como classe, assume então a responsabilidade de transformar a sociedade capitalista em sociedade sem classes.
Segundo Marx, só o proletariado teria uma “consciência de classe”, e a burguesia não a poderia ter senão como sendo uma “falsa consciência de classe”, porque a burguesia teria a consciência da contradição irresolúvel da sociedade capitalista, mas nada poderia fazer para a eliminar. Portanto, só com o surgimento do proletariado se passou a poder compreender totalmente a História, e passou a ser possível resolver os conflitos históricos.Até aqui, a teoria parece ter alguma lógica, mas a estória não fica por aqui.
Contudo, Marx defendeu a ideia de que a realização da verdadeira “consciência de classe” do proletariado é o desaparecimento, por via dialéctica, do próprio proletariado, isto é, a tarefa do proletariado é acabar com a sua condição de proletariado, levando até ao fim a sua luta de classe.
Quando Marx nega à burguesia a consciência de classe, o que faz é constatar a impossibilidade da burguesia em determinar o curso da História. Para Marx, o curso da História só poderia ser determinado pela “consciência de classe”, e portanto, o proletariado é, por isso, o único protagonista histórico.
Contudo, se a realização plena da “consciência de classe” significa o fim do proletariado, e significa, consequentemente, o fim da própria “consciência de classe”, o conceito de “consciência de classe” que fundamenta o Materialismo Histórico significa o fim da própria História, isto é, a visão histórica do Marxismo assenta na impossibilidade prévia dessa mesma visão histórica!
Estão a ver o problema que Marx nos arranjou? E não é que o neoliberal Hayek fez a mesma borrada, embora com outros argumentos?
Adenda: Sabem porque é que os neoliberais e os neomarxistas da blogosfera têm tantas discussões e tão acaloradas? É para saberem, dos dois tipos em disputa, qual dos “fins da História” é o mais racional.








Olá
Tudo bem?
Gostaria que você me esclarece um pouco melhor o que quis dizer nesse trecho:
“Contudo, se a realização plena da “consciência de classe” significa o fim do proletariado, e significa, consequentemente, o fim da própria “consciência de classe”, o conceito de “consciência de classe” que fundamenta o Materialismo Histórico significa o fim da própria História, isto é, a visão histórica do Marxismo assenta na impossibilidade prévia dessa mesma visão histórica!”
A mim não parece que a visão marxista se assenta na impossibilidade prévia dessa visão histórica. Não poderia ser assentada na busca da superação e posterior eliminação dessa visão histórica, uma vez que no “mundo comunista ideal’ não haveriam classes nem divisões de classes, portanto não haveria espaço para a consciência de classe?
Um abraço
Thiago
Comentário por Thiago — Segunda-feira, 23 de Junho de 2008 @ 6:49 am
… portanto não haveria espaço para a consciência de classe?
Não havendo espaço para a consciência de classe a partir do momento em que acontecia o fim do proletariado, a visão histórica marxista — que assenta no conceito e consciência de classe a qual deixou de existir com o fim do proletariado — assenta previamente na ideia do fim da História, o que é um absurdo. Não podemos ter uma visão da História que inclua o seu fim, porque isso seria negar o próprio conceito epistemológico de “História”. Quando uma visão da História assenta na ideia do seu fim, é uma visão histórica acientífica, em que um futuro desejável e hipotético é compulsivamente desenhado para explicar o passado e presente.
Comentário por O. — Segunda-feira, 23 de Junho de 2008 @ 2:03 pm