perspectivas

Sexta-feira, 9 Maio 2008

O que distingue Manuela Ferreira Leite de José Sócrates?

Seria necessário saber se MFL é eleita com ou sem maioria absoluta. Se for eleita sem maioria absoluta, a “performance” de um governo de MFL dependerá de um acordo de incidência parlamentar com o CDS/PP de Paulo Portas, já que MFL afastou a hipótese de coligação governamental. Neste caso, o cenário seria pior para Portugal – não que eu seja favorável a maiorias absolutas de um só partido, pelo contrário – porque não simpatizo pessoal e politicamente com a actual liderança do PP. Não terá chegado o momento de Nuno Melo substituir Paulo Portas?

Economia

Na entrevista à RTP1, MFL disse que era mais “humanista” do que um José Sócrates “tecnocrata”, porque nunca teria acabado com os certificados de aforro que garantem as pequenas poupanças dos portugueses. Desde logo, “tecnocrata” é um eufemismo. Sócrates não é um “tecnocrata”, nem ser sequer é “burocrata” – talvez a “burrocracia” lhe seja mais familiar – porque governa por “espírito santo de orelha”, e aqui está uma diferença em relação a MFL: pelo menos nas questões da economia, MFL está muito mais à vontade e pensa pela sua própria cabeça.

No entanto, MFL disse que “o défice do Estado estava controlado, mas não estava estabilizado”. Naturalmente que ela tem razão, porque o balanço entre as receitas e as despesas do Estado é garantido pelos impostos, e quando as empresas fecham em catadupa e o desemprego aumenta, não há receita que aguente a despesa. MFL é uma contabilista, e por isso, é de prever que cairá no erro de cortar drasticamente na despesa se não conseguir aumentos de receita que não sejam pela execução de uma política fiscal de perseguição feroz e despropositada ao cidadão comum.

Em última análise, MFL tenderá a introduzir o despedimento sumário na função pública: se isso acontecesse, e com o investimento estagnado na economia, entraríamos num processo de bola-de-neve: baixa a receita do Estado por via do desemprego e das falências das empresas, e por isso corta-se na despesa, que faz, por sua vez, baixar ainda mais a receita, que por sua vez provoca mais cortes na despesa, que diminui ainda mais a receita, e por aí fora, até que todos tenhamos que pagar propinas para pôr os nossos filhos a estudar na escola primária, coisa que nem no tempo de Salazar aconteceu. Estou a exagerar, mas nem tanto.

Portanto, no que diz respeito à economia, temo que com MFL vamos ter mais do mesmo ou ainda pior, porque o que a economia portuguesa precisa é de alguém suficientemente “descomplexado” que se faça ouvir em Bruxelas (Alberto João Jardim) e que chame à atenção para a especificidade da nossa economia. Penso que MFL será mais “uma aluna bem comportada”, a somar a tantos outros.

Dou um exemplo do que está aqui em causa (e porque simpatizo mais com a ideia de Alberto João Jardim para PM de Portugal): a defesa espanhola (reiterada ainda por estes dias no Parlamento Europeu) da entrada urgente da Turquia na UE, não obstante as reservas da França e da Alemanha, significaria mais uma machadada na nossa economia já tão frágil, e naturalmente que quanto mais frágil estiver Portugal economicamente, mais forte estará o poder político de Madrid.
Somem 1+1: o que leva Madrid a defender apaixonadamente a entrada da Turquia na UE? Então a Grécia, que está mesmo ao lado da Turquia, não se preocupa com a sua entrada na UE, e os espanhóis andam tão preocupados?! Porque será?
Será uma questão ideológica dos políticos espanhóis? “Está bem! (a belha!) ” Não há almoços grátis e nada acontece por acaso. Portugal tem ¼ da população ibérica e do seu território; não há nada como “matar dois coelhos com uma só cajadada”: resolver o problema das nacionalidades espanholas e o “problema histórico” de Portugal, através da União Ibérica das nacionalidades – “tácita” numa primeira fase (a que nos encontramos já), “oficiosa” numa segunda fase, e “oficial” numa última fase – com sede do Poder em Madrid. Para isso, há que adoptar uma política económica de terra queimada para Portugal, e Sócrates tudo tem feito nesse sentido (e não faz mais porque até parece mal). E depois, quiçá se um dia a União Europeia se desmembrar, a alienação portuguesa passará a ser um “fait accomplis” da política internacional.

Os lobbies políticos e a Cultura de Estado

Depois, há a questão dos lobbies políticos. Sócrates foi eleito bastante comprometido com vários lobbies, entre estes – e para além do lobby iberista-maçónico de que José Sócrates tanto gosta –, aqueles que Alberto João Jardim denuncia: o lobby da construção civil, o lobby gay e o lobby da droga.
A introdução das “salas de chuto” e das drogas nas prisões através do programa de troca de seringas – a que nenhum recluso aderiu –, não deixa dúvidas sobre a razão do Alberto João.
O lobby da construção civil e da especulação imobiliária, entre outras coisas, quis levar o aeroporto de Lisboa para a OTA, e quase o conseguiu.
O lobby gay conseguiu, através de José Sócrates, passos gigantescos no sentido da desconstrução cultural da família portuguesa e a sua destruição progressiva, no sentido de substituir a sua essência cultural, tradicional, civilizacional e histórica, por uma dependência de um Estado falido mas que se pretende omnipresente e omnipotente em questões culturais e do foro da intimidade dos portugueses.

Com MFL, os lobbies continuarão a pressionar o Poder executivo, mas com muito mais dificuldade. As agendas dos lobbies serão filtradas com mais acuidade e cuidado, porque não vejo MFL a fazer a figura que José Sócrates faz. E depois, há que reconhecer que MFL é um ser humano com boa formação e de bons princípios, princípios que Sócrates não tem. Aqui, a diferença entre os dois é enorme. MFL é uma pessoa séria e uma mulher de família. Sob o ponto de vista cultural e na questão de transparência dos negócios do Estado, ficaríamos todos a ganhar com MFL.

6 Comentários »

  1. Dou-lhes os parabéns por esta análise tão cuidada que fazem da personalidade de MFL a “Dama de Fe”. Acredito, que ela,digo, nós, vamos ganhar esta “candidatura” no PSD, e também candidatura e 2009. O actual PM bem poderá preparar o seu “projecto de vida”, já que dos outros, nunca participou em nenhum… assinou sempre aquilo que os desenhadores lhe ponham em frente.
    Está a ter o mesmo comportamento no governo.

    Comentário por Carlos Fernandes — Sexta-feira, 9 Maio 2008 @ 9:43 pm

  2. Meu caro, discordo de muito do que escreves aqui.
    Comecemos pela Turquia, “da entrada urgente da Turquia na UE, não obstante as reservas da França e da Alemanha, significaria mais uma machadada na nossa economia já tão frágil, e naturalmente que quanto mais frágil estiver Portugal economicamente, mais forte estará o poder político de Madrid.”
    Portugal só teria a ganhar com a entrada da Turquia (tal como Espanha) pois uma Turquia com uma população semelhante à Alemanha viria dissolver o poder dos quatro grandes obrigando-os a fazer apelos aos mais pequenos para conseguirem maiorias.
    Depois a Espanha não está interessada em tornar Portugal uma região espanhola. Se Portugal fosse uma região de Espanha, o núcleo duro espanhol arriscava-se a perder o controlo do país pois as regiões periféricas e com sentimentos nacionais mais marcados, País Basco, Navarra, Catalunha, Valência, Galiza e Portugal, todas com línguas própria passariam a constituir quase metade ou mesmo metade da população da Ibéria.
    Não, a Espanha convem a situação actual em que Portugal é cada vez mais uma região esopanhola mas uma região referenciada e obediente e que não elege deputados para as Cortes em Madrid.
    As referências ao lóbi da droga são absurdas. O lóbi da droga existe mas, o seu interesse nunca está na abertura da droga à população, o seu interesse está exactamente na manutenção da situação actual e, se possível do seu endurecimento. É a repressão que lhes permite vender um produto sem qualidade a preços exorbitantes. E não é a repressão que os leva à prisão. Quem é preso é o pequeno traficante, os grandes senhores, os que controlam a droga, nunca têm problemas com a Lei.
    Quanto à Manuela Ferreira Leite, francamente, a MFL é como o Sócrates mas em pior…
    Ou já nos esquecemos da sua passagem desastrosa pelo Ministério da Educação e pelo Ministério das Finanças?

    Comentário por O Raio — Terça-feira, 13 Maio 2008 @ 2:34 am

  3. @Raio:

    Turquia

    1. O que é que a Turquia exporta para a UE (embora ainda com taxas aduaneiras)? : Têxteis, confecções, calçado e mobiliário.

    2. Quanto ganha um turco? Cerca de 120 Euros por mês (na moeda deles) e o patronato paga 3% de segurança social. Trabalham ao sábado de manhã.

    3. Qual o país da Europa que sai mais prejudicado com a adesão da Turquia? Adivinhem.

    Iberismo:

    A ler :

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Iberismo.

    Imperialismo espanhol visto por um comunista português: Do fantasma do iberismo à dominaçom espanhola

    e principalmente:

    http://lusotopia.no.sapo.pt/indexPTIberistas.html;

    Portanto, caro Raio, antes de dizeres alguma coisa, tens que saber aquilo que não queres dizer (Chesterton). De contrário, dá-me uma trabalhera estar a aqui a colocar os pontos nos ii. Naturalmente que eu não tenho credibilidade para defender qualquer tese, mas se alguém mais a defender, o Raio passa a dar credibilidade a esse alguém — a mim, nunca! :smile:

    Será que o Raio não se apercebe que as independências das nacionalidades espanholas são irreversíveis — pode demorar 20, 40 ou 100 anos, salvo se existir uma União Ibérica das nacionalidades?

    La Xunta busca “galleguizar” los colegios mediante “comisarios lingüísticos” en las aulas

    La web del PP de Galicia sólo se puede consultar en gallego

    El BNG prepara una ley de comercio para multar a quienes rotulen en castellano

    El Gobierno retira el atributo “Nacional” de sus organismos, que ahora son “Estatales”

    LD ( F. Díaz Villanueva / V. Gago) El “Gobierno de España”, como le gustó presumir a Rodríguez Zapatero justo a tiempo de la campaña electoral, ha empezado a retirar la palabra “nacional” del nombre de sus organismos, que pasan a llamarse agencias o museos “estatales”. Uno de los primeros en perder la condición de organismo “nacional” es el Instituto Nacional de Meteorología, así llamado desde su creación hace 147 años. Ahora se llama Agencia Estatal de Meteorología. Los antiguos Museos Nacionales forman ahora la “Red Estatal de Museos”.

    A mim chateia-me ter razão, e mais me chateia quando a tenho e não ma dão.

    Comentário por Orlando — Terça-feira, 13 Maio 2008 @ 11:02 pm

  4. [...] — Orlando @ 10:14 pm Tags: Espanha, iberismo, Portugal Para quem me colocou em causa neste post, leia [...]

    Pingback por Eu gostava de não ver tão longe; sinto náuseas « perspectivas — Sábado, 24 Maio 2008 @ 10:39 pm

  5. É com profunda tristeza que conclui mais uma vez que o autor deste texto pertence á classe dos que dizem mas nada fazem, dos que teorizam mas não concretizam tal como a MFL, defendida aqui pelo mesmo. Enquanto as mentalidades portuguesas não mudarem, enquanto cada um olhar somente para o seu umbigo como o fazem 95% da classe dos professores e empregados públicos, este pais não avançará. Enquanto se prometerem obras mas não se concretizarem ….. tenho muita pena mas continuaremos cada vez mais na cauda da Europa. A revolução tecnológica tem sido um sucesso e só ignorantes não o vêem, mas em vez de ajudarem os nossos filhos nas escolas a usar as tecnologias que acontece? Criticas e mais criticas sobre o Magalhães e não o usam na maioria das escolas. Eu próprio tenho filhos e por causa de uma aluna cujos pais não se interessaram em adquirir o Magalhães, a professora proibiu o uso do mesmo. Achando eu que a professora estaria a tentar evitar discriminações com a aluna que não possuía o computador, disponibilizei-me a fornecer do meu bolso um PC para a menina, sempre que a professora desse a aula com o pc. Para meu espanto continua tudo na mesma, os miúdos, incluindo o meu filho continua sem usar o PC, e passou a ser unicamente um objecto para usar em casa, sem que a professora o autorize na escola. A desculpa de não terem todos pc era tão falsa como a vontade interior de grande parte dos professores que temos em melhorar o ensino dos nossos filhos. Devemos autorizar que continuem sem ser avaliados ou que se avaliem como bem entendam?
    Infelizmente tenho tido informação que centenas de escolas publicas em Portugal funcionam assim…culpam o governo mas meus amigos…..todos nós já fomos alunos e sabemos bem como funcionou e como funciona essa classe que sempre se considerou elitista e que nunca teve a humildade para parar e reflectir e acima de tudo por em pratica métodos de ensino que beneficiassem os alunos. Temos grandes professores em Portugal sem duvida alguma, gente cuja vocação é verdadeiramente ensinar, está na hora de separar o trigo do joio beneficiando quem é bom e não permitir que aqueles cuja vontade de ensinar somente se liga exclusivamente subida da carreira e ao salário do fim do mes continuem a gozar com as nossas caras.
    MFL foi ministra das finanças e também da educação: como é possível uma senhora que aprova uma lei proibindo os professores de fazerem declarações publicas, sem autorização expressa da direcção regional de educação, agora venha falar em defícite democrático. É triste, mas acima de tudo é triste ver como o nosso povo se deixa manipular tão facilmente mesmo depois de ter tido provas que a dita MFL fez asneiras umas atras das outras e nos levou a uma situação na altura de quase bancarrota. Deus nos ajude se ela ganhar…

    Comentário por Joaquim Ferreira — Sábado, 19 Setembro 2009 @ 11:50 pm

  6. «A revolução tecnológica tem sido um sucesso e só ignorantes não o vêem, mas em vez de ajudarem os nossos filhos nas escolas a usar as tecnologias que acontece? Criticas e mais criticas sobre o Magalhães e não o usam na maioria das escolas.»

    Como professor de cursos tecnológicos, posso afirmar com grande certeza que, apesar das «revoluções tecnológicas estarem a ser um grande sucesso», chegam-me alunos cada vez mais mal preparados; eu já não consigo ensinar-lhes aquilo que ensinava a alunos da mesma idade há anos atrás porque não têm a preparação necessária. Atribuo isso ao facilitismo mas devo estar desfasado, apesar de ter também perfeito domínio das «novas tecnologias». «Novas tecnologias» é o mesmo que Magalhães, assim como «gases de efeito de estufa» significa CO2 apenas.

    Eu acho que as novas tecnologias deviam também incluir o ensino do trabalho com caixas registadoras de supermercados e também o ensino do trabalho com telefones dos call centers, isso sim é que são novas tecnologias. Carregar num pedal de passadeira de supermercado é uma coisa que exige treino, devia haver mestrados em Pedalogia e em Técnicas de Registo de Compras, bem como em Assistente Técnico de Centro de Atendimento Automático.

    Os professores deviam frequentar estágios em supermercados e em call centers para depois poderem ensinar aos seus alunos as novas tecnologias. E deviam ser avaliados pelos chefes desses sítios, e quem não tivesse «pedalada» era posto no olho da rua.

    Viva o Magalhães, vivam as novas tecnologias!

    Comentário por Henrique — Domingo, 20 Setembro 2009 @ 9:30 am


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