perspectivas

Segunda-feira, 5 Maio 2008

Sobre as declarações de Ferreira Leite este fim-de-semana

Arquivado em: Política, Sociedade — O. Braga @ 12:29 pm
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O PPD/PSD sempre foi um partido inter-classista quando foi necessário defender a liberdade de expressão, a democracia representativa e a livre iniciativa na economia, isto é, o PSD nunca foi um partido político mono-ideológico, mas antes identificado com uma série de ideais em que se reviam pessoas praticamente de todas as classes sociais.

A sociedade mudou desde o início da década de 90 e o partido socialista adoptou a “terceira via” do sincretismo marxista/neoliberal (marxista na cultura e neoliberal na economia), tentando conciliar contrários e continuando assim condicionado ideologicamente, como sempre esteve.

A elite do PSD — aqueles a que se chamam os “barões” instalados em posições de proeminência social e política que o próprio partido socialista apadrinha, promove e defende — não soube perceber os novos anseios inter-classistas da sociedade, e a “crise do PSD” resume-se a um surdo confronto entre os novos anseios, múltiplos e por vezes difusos, das bases do PSD com a elite dos barões a-ideológicos que preferem o PS da terceira-via no poder a ter que arriscar privilégios garantidos.

Existem hoje novas preocupações “inter-classistas” em relação à liberdade de expressão num Portugal inserido numa lógica de leviatão europeu, à livre iniciativa económica através das pequenas e médias empresas, que é progressivamente anulada por uma ditadura económica dos poderosos, e a democracia representativa é cada vez mais substituída por um poder estranho aos cidadãos portugueses e que vem de fora.
São estas novas preocupações inter-classistas que os barões do PSD se recusam a abordar e a analisar no sentido se encontrarem soluções de compromisso que dignifiquem o estatuto da cidadania portuguesa.

Um exemplo do que digo é a oposição à humilhação que este Acordo Ortográfico nos traz. O partido socialista em bloco – porque a oposição interna no PS actual é bastante condicionada – defende esta reforma humilhante e ilógica para o nosso povo e para a nossa cultura, enquanto que a oposição organizada ao Acordo é constituída por gente conotada com o PSD das bases. Poderia dar muitos outros exemplos que nos mostram que a crise no PSD resulta de um tácito encontro de vontades e conveniências entre os “barões” e a actual direcção do PS, sob a batuta de Bruxelas que ordena a submissão da política à economia, isto é, a subjugação vexante do espírito pelo dinheiro.

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