A revolta dos «croissants»

As recentes comemorações nacionais do Maio de 68 em Paris têm-me trazido algumas perplexidades no que respeita a opiniões produzidas nos me®dia por intelectuais de relevo. Tenho ouvido de tudo: desde o Prof. José Gil falar nos “corpos que se movimentaram”, aos marxistas mencionando a “importância do contacto entre a classe estudantil e o operariado”.
Em Maio de 68 andaria eu pela 4ª classe, de modo que se alguém me perguntar “onde estavas tu no Maio de 68?”, responderei que frequentava a escola Pêro da Covilhã, em Nampula, Moçambique. Eu declaro aqui que não estive lá.
O que me parece é que o Maio de 68 foi uma revolta de estudantes da burguesia contra uma limitação das liberdades individuais em vigor na sociedade gaulista, revolta essa que como sempre leva a alguns exageros e a esparsos estados-de-alma revolucionários. No meio da revolta dos meninos da burguesia, aproveitaram-se os ideólogos jacobinos em serviço para deixarem ficar a sua marca, tentando conduzir o motim no sentido que mais lhes convinha.
A visão romântica da “utopia” no Maio de 68, que os ideólogos veiculam, é patética. Provavelmente, o Maio de 68 terá começado na cafetaria de uma faculdade num dia em que o café foi servido com borra, ou numa manhã em que os “croissants” vendidos eram do dia anterior – da mesma forma que a revolta do 25 de Abril de 1974 começou por uma insurgência dos capitães do quadro oficial oriundos da Escola do Exército contra as promoções administrativas de alferes milicianos ao posto de capitão. As revoltas adquirem a “utopia” que uma minoria de ideólogos oportunistas tenta sempre impor através da manipulação de atitudes colectivas, quando a horda de revoltosos chega à conclusão de que a revolta pode ser interpretada como uma causa egoísta ou fútil, e para a justificar, há que dourar a pílula com a introdução de uma utopia qualquer que a justifique perante a opinião pública.
O que Maio de 68 conseguiu para França, depois da intervenção política dos ideólogos marcusianos, já existia em Inglaterra há vários anos embora sem a carga ideológica radical: cabelos compridos e barba por cortar, marijuana menos dissimulada, e principalmente a “liberdade” sexual, que sendo em Inglaterra culturalmente natural, em França passou a seguir a cartilha política de Wilhelm Reich. Enquanto que Marcuse não era levado a sério nos Estados Unidos, onde vivia, em França a Utopia Negativa ganhou contornos de autêntica religião, na refrega da revolta dos “croissants”. Não deixa saudades.








«As revoltas adquirem a “utopia” que uma minoria de ideólogos oportunistas tenta sempre impor através da manipulação de atitudes colectivas, quando a horda de revoltosos chega à conclusão de que a revolta pode ser interpretada como uma causa egoísta ou fútil, e para a justificar, há que dourar a pílula com a introdução de uma utopia qualquer que a justifique perante a opinião pública.»
Creio também que poderá ter sido assim.
Comentário por Henrique — Segunda-feira, 5 de Maio de 2008 @ 10:15 pm