perspectivas

Sábado, 3 Maio 2008

O “Iluminismo” em 5 minutos

Filed under: cultura — O. Braga @ 10:24 am
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O Iluminismo (“Aufklärung“) nasceu do nome de uma seita secreta anti-cristã que apareceu organizada no sul da Alemanha em finais do século 17 – os “Illuminati” –, que ganhou ramificações em toda a Europa e cujas raízes já existiam identificadas pelo menos desde finais do século 16 (com o “Libertinismo”“), e que mais tarde se fundiu na franco-maçonaria – como não poderia deixar de ser, retornando às origens, assim como a Carbonária que assassinou o nosso rei D. Carlos “desapareceu” depois do “fait accomplis” e retornou às suas origens. Trata-se de uma “técnica” maçónica clássica: cria uma “task force” temporária para um determinado fim, normalmente brutal, e depois da missão cumprida recolhe os seus elementos às suas fileiras, perdendo a sua identidade. A maçonaria já enganou muita gente com esta estratégia, mas felizmente cada vez menos.

Os Illuminati estiveram intimamente ligados à Revolução Francesa (os jacobinos) e de algum modo envolvidos no processo de independência dos Estados Unidos (Thomas Jefferson).

O ideário que está subjacente ao Iluminismo é, basicamente, assente numa falácia: a de que a filosofia assenta na Razão, e como a teologia e o idealismo em geral, na opinião dos Illuminati, não assenta na Razão, não pode fazer parte da filosofia.

Assim, tudo o que não seja palpável, visível e passível de ser sentido objectivamente pelo Homem e que possa ser “induzido”, não é racional e deve sair da filosofia. Tudo o que é “deduzido” não pode fazer parte da filosofia, e assim, a filosofia passaria a ser sinónimo de uma “ciência” empirista. O absoluto determinismo do universo que deveria marcar, segundo Christian Wolff, a perspectiva científica e portanto, filosófica – e que a ciência contemporânea já deitou para o caixote do lixo – é uma ideia peregrina dos “Illuminati” – nem Protágoras fora tão fundamentalista em relação ao determinismo do universo.

Os Illuminati baniram o Idealismo da História da filosofia, isto é, “eliminaram” o platonismo que se apresenta: na sua lógica, como realismo; na teoria do conhecimento como apriorismo, inatismo ou racionalismo, e na ontologia como espiritualismo e teleologia. Para os Illuminati e, posteriormente, para os positivistas, Aristóteles e Espinosa (é absolutamente falso que Espinosa possa ser considerado um “iluminista”, como diz a Wikipedia), que se notabilizaram pelo carácter matematizante das suas doutrinas, não eram considerados filósofos; Fichte e Schelling, com as suas tendências para o “absoluto”, idem; Descartes e Hegel, que afirmaram uma actividade espiritual espontânea que não é condicionada pelo mecanismo do espaço-tempo, não seriam filósofos também; e até Leibniz e Herbart, porque admitem uma norma moral que não deriva da sensibilidade, eram ostracizados pela filosofia dos Illuminati.


«Um dos traços constitutivos da mentalidade revolucionária é a compulsão irresistível de tomar um futuro hipotético – supostamente desejável – como premissa categórica para a explicação do presente e do passado. Nessa perspectiva, a história humana é vista como um trajecto linear – embora entrecortado de abomináveis resistências – em direcção ao advento de um estado de coisas no qual o curso total dos acontecimentos encontrará sua consumação e sua razão de ser.
Mais cómica ainda, ou tragicómica, torna-se essa inversão quando, à maneira iluminista, o futuro esperado é descrito como o triunfo da racionalidade científica sobre o obscurantismo das crenças bárbaras. Pois a concepção futurocêntrica da História, virando de cabeça para baixo a hierarquia do necessário e do contingente já traz em seu bojo a destruição completa da lógica, do método científico e de toda possibilidade de compreensão racional da realidade.»

- Olavo de Carvalho, sobre o Iluminismo repercutido na actualidade.

Um dos maiores filósofos contemporâneos, Olavo de Carvalho, é particularmente crítico em relação ao Iluminismo, e com razão. Contudo, nem todos os filósofos que viveram no tempo do Iluminismo eram verdadeiros iluministas: Kant, por exemplo, foge claramente ao padrão iluminista quando defende o apriorismo na sua teoria do conhecimento; o “problema” de Kant foi ter sido aluno predilecto de um “Illuminati” (Martin Knutzen, professor em Koenisberg) e ficou-lhe o epíteto e a fama, apesar do seu racionalismo dedutivo e apodíctico. Mesmo Christian Wolff, considerado um dos mais importantes iluministas, admite uma “teologia racional” como sendo parte da filosofia.

Uma das características dos materialistas em geral é a sua extrema hipocrisia que advém do não reconhecimento da insegurança inerente no ser humano; por exemplo, o positivista e utilitarista Stuart Mill – que herdou do iluminismo a sua essência – escreveu um ensaio no fim da sua vida (com publicação póstuma) com o título “Natureza, Utilidade da Religião e Teísmo”, em que defendia a ideia da existência de um “demiurgo” (Deus) e defendeu claramente o princípio finalista, através do qual “a ordem da natureza tem as características das coisas produzidas por um espírito inteligente, com vista a um fim” (sic). Se isto não é hipocrisia, tendo em vista todo o percurso ideológico de Stuart Mill, não sei o que seja.

O Iluminismo lançou um vírus infeccioso na vida das ideias que se sente até hoje, e que causa um torpor que parece anunciar a morte da filosofia, dado o seu carácter unanimista. A evolução da filosofia parece ter seguido, depois dos iluministas e em crescendo, um caminho sem saída: os “empiristas”, os “positivistas”, os “utilitaristas”, os marxistas, a utopia negativa, os “existencialistas” e finalmente o neoliberalismo de Hayek marcado pelo cepticismo de Hume, todos eles são herdeiros da visão primordial dos “Illuminati” – e a filosofia foi penetrando sempre mais e mais num beco sem saída, “afunilando” o seu horizonte e as suas perspectivas.

O que a ciência actual parece – finalmente – ter compreendido é que tem que aliar a “indução” dos iluministas e positivistas à “dedução” dos idealistas. É na conjugação dos dois conceitos que está a chave do progresso das ideias e do conhecimento. Os períodos históricos de radicalização intolerante, para qualquer dos lados, não têm sido úteis à humanidade.

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