Tem acontecido recentemente fenómenos que se pretendem assumir como “culturais” e representativos da “Arte” moderna, como a de um “artista” sul-americano que deixou morrer um cão à fome e sede numa bienal de arte, e mais recentemente a de um alemão que considera como sendo arte moderna colocar um idoso moribundo numa sala de exposições juntamente com as outras de peças de arte. Este tipo de tendência “artística” pode ter duas leituras:
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§ A primeira será a de tentativa de choque psicológico na opinião pública perante os assassínios massa que ocorrem hoje no Darfur e em tantos outros lugares, e dos milhares que morrem à míngua em todo o planeta. Se a intenção dos artistas em questão é a de choque psicológico numa tentativa de sensibilização colectiva, eles irão obter o resultado oposto porque a vulgarização de uma determinada imagem como espectáculo de massas leva à indiferenciação do próprio objecto do espectáculo.
§ A segunda hipótese será a de um hiper-realismo artístico de apelo a determinadas ideologias de um heretismo histriónico hodierno, que se manifestam no sentido da decisão da vida e da morte humana ao nível da ideia do “Homem que quer ser Deus”, citando Sartre. Sendo assim, o caso assume contornos mais graves, sob o ponto de vista ético.
Naturalmente que eu, como pessoa minimamente inteligente, tendo a interrogar-me sobre a racionalidade destas manifestações da contemporaneidade, questionando-me sobre a minha própria racionalidade na análise que faço delas e sobre a razão de quem as promove – não vá estar eu errado e a fazer juízos de “preconceito negativo”, que é aquele tipo de preconceito que não admite discussão e se fecha em tabu. Gosto pouco de tabus e muito de uma discussão saudável, e se a razão me impõe um tabu, este deixa de ser um dogma para ser um “preconceito positivo”. Por isso, o facto de alguém deixar um cão morrer à fome e sede é para mim um “tabu racionalizado”, isto é, um preconceito positivo face à própria análise racional desse facto. Portanto, nem todo o preconceito é irracional e negativo.
Por outro lado, a exibição de um moribundo como se uma peça de arte se tratasse é também, para mim, um tabu racionalizado, na medida em que a morte de um ser humano é algo que merece o respeito inerente à reserva da intimidade a que cada um de nós tem direito, mesmo tendo em conta o facto de o moribundo ter eventualmente anuído em colaborar com o espectáculo do artista. Não podemos simplesmente dizer: “o moribundo concordou com a exposição pública da sua morte, o espectáculo fez-se e só lá vai ver quem quer”, porque não é pelo simples facto de não assistirmos à morte de um idoso em exposição pública que ela deixou de acontecer nessas condições; seria como dizermos que não existe genocídio em Darfur simplesmente porque não estivemos lá para ver se existia ou não. Os factos existem independentemente de assistirmos a eles.
Depois, há que questionar a liberdade dos intervenientes, porque coloca-se aqui a questão da concordância entre as partes para a realização do espectáculo – o acordo entre o moribundo e o artista. Esta análise é interessante, porque o hiper-realismo artístico deste tipo tem um forte cunho existencialista.
O conceito de liberdade existencialista não tem nada a ver com a liberdade consagrada e delimitada pela lei ordinária e pelos bons costumes: Sartre não coloca absolutamente nenhuma barreira à liberdade de cada um, isto é, o valor da subjectividade de cada indivíduo, em qualquer circunstância, tem sempre o direito de se pretender impor aos outros indivíduos – subjectividade essa inserida numa moral despida de “espírito de seriedade” valorativa. Para Sartre, a própria irracionalidade faz parte da razão, quando defende que a opção de matar (fazer a guerra) é uma opção moralmente equivalente à opção de não matar (desertar da guerra), porque se trata da afirmação absoluta da subjectividade humana que se traduz na sua condição de “Ser condenado a ser livre” e, por isso, a decidir como melhor lhe convier.
“Mereço-a (a guerra) em primeiro lugar porque poderia subtrair-me a ela suicidando-me ou desertando; devemos ter sempre presentes estas possibilidades quando temos que enfrentar uma situação. Se não tive nenhuma dessas duas atitudes, então eu terei optado pela guerra: talvez que o tenha feito apenas por fraqueza perante a opinião pública, dado que prefiro certos valores à recusa de entrar na guerra. Mas de qualquer modo, trata-se sempre de uma opção.” (Sartre – “L’ être et le néant”)
A noção de liberdade de Sartre é uma noção irreal e farisaica (elitista). Basta-nos ver o que se passa nas sociedades super-consumistas para sabermos que as “opções” são induzidas a nível do inconsciente individual e colectivo (e por isso, não são opções), e que a liberdade de cada um tem que ser trabalhada e aperfeiçoada individualmente – a liberdade é uma conquista interior do Homem enquanto indivíduo, e não algo inerente e intrinsecamente ligado à própria existência, como defendeu Sartre. A liberdade só existe com a Razão, e como o instinto e a irracionalidade convivem com o Homem, não podemos dizer que o ser humano é livre por exigência e inerência existencial. O Homem não é livre porque existe; é livre porque e quando raciocina. A Liberdade sem Razão é simples instinto de auto-preservação. Sartre estava profundamente errado.
“Existe uma lei verdadeira, a da recta Razão que é conforme com a Natureza, difundida entre todos, constante, eterna, que com o seu mandado convida ao dever e com a sua proibição dissuade o engano.” – Cícero
Cícero foi um estóico, e embora eu não concorde com muita coisa no estoicismo, acho esta definição de “lei”, exemplar. Na noção de “dever” ético dos estóicos se baseou Kant para a sua ética. Cícero sublinha que o dever ético, que se consagra na lei que rege a liberdade dos homens, deve estar sempre condicionada à Razão, e que deve ser “difundida entre todos”, isto é, deve ser uma lei universal. Ademais, Cícero prevê “a proibição” que “dissuade o engano”, isto é, defende a restrição das liberdades individuais quando estas não estejam em conformidade com a Razão que a lei universal e natural determina.



