Estive a ler exaustivamente o Acordo Ortográfico. “Dou de barato” o “atualmente”, “ato”, “ação”, “afetivo”, etc. Contudo, mantém-se facultativo o uso de “aspecto”, “sector”, “dicção”, “facto”, etc.
Passa a ser obrigatória a eliminação das consoantes mudas como “assunção” em vez de “assumpção”, “suntuoso” em vez de “sumptuoso”, o que também “dou de barato”, o que significa que será correcto escrever-se:
“O facto da ação do filme se basear numa dicção portuguesa da língua é a assunção de um aspecto a considerar tendo em conta o lado afetivo da tradição do linguajar do português europeu.”
Com o que eu não concordo é com a flexão dos verbos que elimina acentos nos tempos dos verbos, como acontece com o verbo “pelar”, “acertar”, “acordar”, “cercar”, “corar”, “dar”, e muitos outros. Por outro lado, no emprego do hífen passam as excepções a ser tantas quanto a regra, o que é um absurdo.
Também não concordo com o uso dos meses, dias e estações do ano em letra minúscula. Outro exemplo, é o dos bibliónimos: um livro com o título “Jangada de Pedra” passará a ser escrito “Jangada de pedra”. Não concordo.




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Nunca será sancionado pelo Acordo Ortográfico a construção “O facto da ação do filme se basear” pelo simples facto de ela ser agramatical. A forma correcta é e será “o facto de a a(c)ção se basear…”
E porque não há-de concordar com o uso de minúsculas nos nomes dos meses ou estações do ano? E em relação aos bibliónimos?
Porque concorda com as outras alterações? Por gosto?
Actualmente o Orlando escreve “assumpção”?
Para terminar, o que entende por dias do ano?
Obrigado
Comentário por ricardonobre — Domingo, 27 Abril 2008 @ 5:54 pm
Este diálogo pode cair no fundamentalismo que caracterizou a discussão da despenalização do aborto: eu concordava com a lei anterior sem quaisquer alterações, e os fundamentalistas que me visitavam diziam que, para eu ser coerente, deveria ser contra o aborto em qualquer circunstância. Espero que não se vá por aí e se diga que, para que eu seja coerente, teria que defender a escrita de Eça de Queirós.
O “de” + “a” resulta em “da” por aglutinação; “da ação” estará sempre correcto e não é agramatical — para isso existem as aglutinações reconhecidas pela gramática. Quanto ao “c” de acção, deixa de existir segundo esta reforma, é simplesmente eliminado. Portanto, será correcto (segundo a reforma) escrever-se:
“O facto da ação do filme se basear”
Se a ideia é aproximar o português do Brasil do de Portugal, e embora isso vá contra a herança etimológica das palavras, até posso ceder com o “atualmente” e com o “batista”. Não se trata de gosto, mas de uma concessão. Acho que devemos procurar aqui o meio termo, seguindo os ensinamentos do velho Aristóteles.
Não posso, contudo, concordar globalmente com uma reforma que transforma a língua num dialecto “à la carte” e que abre as portas a uma nova imposição exterior dentro de pouco tempo, quiçá vinda de Angola ou de Moçambique, defendida em nome do acto de “cuidar dos outros”, como disse Gilberto Gil. Em nome do “cuidar”, deixamos de escrever português e passaremos, a breve trecho, a escrever “pretoguês”.
Eu escrevo “assumpção”, “assumptivo” e “assumptivamente”. Como disse acima, dava de barato a eliminação do “p”, pese embora vá contra a etimologia; é uma concessão em nome da harmonia.
A razão porque se deve escrever Outono e Segunda-feira, é a mesma porque se deve escrever Brasil e Angola: com maiúsculas. Porque não se passa a escrever “angola” e “brasil” (com minúsculas)?
O que não concordo (também) é com a eliminação dos acentos nas flexões verbais. Se Gilberto Gil quer cuidar da sua gente analfabeta, e se acha que a eliminação dos acentos ajuda, sinta-se à vontade; não podemos é, nós portugueses, de deixar de cuidar da Razão para agradar a Gilberto Gil.
A massificação — indiscriminada e sem critério — do ensino deu nisto: a criação de analfabetos funcionais; e depois, dizem que “a culpa é da língua que é complicada”.
Comentário por Orlando — Domingo, 27 Abril 2008 @ 6:14 pm
Não vou entrar em fundamentalismos.
Apenas queria esclarecer os motivos da sua tomada de posição. Porque não entendi porque há-de conceder no “atual” e não há-de conceder nos outros casos.
Note, porém, que:
- a norma vigente obriga a escrever os dias da semana (e não do ano, já percebi que foi lapso) em minúscula;
- em francês escrevem-se os nomes dos meses com minúscula, mas continua a escrever-se France, e a norma que se pretende adoptar para os bibliónimos também é a francesa;
- segundo a norma vigente, escreve-se “assunção” e não “assumpção” (daí a pergunta).
Como vê, não tenho posição fundamentalista, tal como não tinha relativamente ao aborto.
Receba um abraço,
Ricardo Nobre
Comentário por ricardonobre — Domingo, 27 Abril 2008 @ 6:27 pm
Não li a sua reacção à minha correcção da sua construção agramatical. O facto da acção significa que a acção tem um facto.
Não me ensine português, por favor…
Comentário por ricardonobre — Domingo, 27 Abril 2008 @ 9:03 pm
“O facto de a acção se basear” — a acção do filme tem um facto (ou possivelmente mais que um) que o caracteriza, isto é, esse facto consiste na acção do filme se basear em alguma coisa (argumento do filme). Quando a acção do filme se baseia em alguma coisa ou em determinada ideia, essa alguma coisa (ou essa ideia) é um facto em que se baseia a acção do filme. Não vejo aqui nenhum problema.
As ideias e os argumentos também podem ser consideradas como factos, não no sentido de “acontecimento” ou “ocorrência de algo”, mas no sentido semântico de “realidade” ou algo que condicione uma determinada realidade.
Penso que o seu problema é o da aglutinação da prep. “de” com o art.def. “a” = “da”- Trata-se de uma aglutinação perfeitamente legitimada pela gramática portuguesa e pelos bons dicionários: segundo o Michaelis:
Da = Combinação da preposição “de” com o artigo demonstrativo feminino “a”.
Não lhe ensino português, mas se mo quiser ensinar a mim, terá que ser mais concreto.
Comentário por Orlando — Domingo, 27 Abril 2008 @ 10:09 pm
[...] a contracção de preposições com artigos Publicado em Abril 28, 2008 por ricardonobre Em recente debate sobre o Acordo Ortográfico com o autor do blogue Espectativas, surgiu a questão da aceitação e correcção gramatical de uma construção do tipo “o facto [...]
Pingback por Sobre a contracção de preposições com artigos « Livro de Estilo — Segunda-feira, 28 Abril 2008 @ 8:47 am
Em relação ao pingback acima, recordo a frase em questão:
Neste caso, a combinação da preposição “de” com o artigo demonstrativo feminino “a” não é utilizada num contexto de construção do genitivo, como acontece, por exemplo, na frase seguinte:
Neste último caso, a combinação da preposição “de” com o artigo demonstrativo feminino “a” participa na definição do genitivo (“posse de”, ou de “pertença a”).
No primeiro caso, a combinação da preposição “de” com o artigo demonstrativo feminino “a” não define o genitivo, é antes uma simples aglutinação da preposição “de” com o artigo definido “a” aplicado num sentido acusativo — o que é gramaticalmente correcto, não só do ponto de morfológico, como do ponto de vista sintáctico.
Isto não significa que se escrevermos
a frase não esteja igualmente correcta — obviamente; significa que o facto de se considerar incorrecta a aglutinação do “de” e do “a” (“da”), no caso vertente, é um excesso de purismo linguístico, uma vez que a própria gramática e os bons dicionários prevêem essa aglutinação, e uma vez que não está em causa a construção de um genitivo, bem visível através de toda (e completa; não podemos analisar só uma parte dela) a construção da frase.
Os casos referidos no artigo como exemplos são de índole diferente.
Comentário por Orlando — Segunda-feira, 28 Abril 2008 @ 11:49 am
Só mais uma coisa: escrevo “assumpção” por uma questão de coerência com “assumptivo” e “assumptível” (para além da etimologia, mas isso dava outra conversa). Se eliminarem o “p”, passarei, em coerência, a escrever “assunção”, “assuntivo” e “assuntível”.
Comentário por Orlando — Segunda-feira, 28 Abril 2008 @ 11:59 am
Dou outro exemplo (para rematar):
Neste caso, não podemos dizer que “matar” tem um “facto”, isto é, não podemos dizer de que estamos em presença de um genitivo, porque o genitivo é negado pelo sentido geral da frase. Não podemos analisar o sentido duma frase quando limitamos essa análise a uma parte dela. O verbo “matar” assume aqui uma função substantivada (o acto de matar).
Comentário por Orlando — Terça-feira, 29 Abril 2008 @ 8:09 pm