Um dos argumentos ateístas mais utilizados para converter as massas é o argumento epicurista de que “se Deus é bom, porque permite o mal?” Por exemplo, quando aconteceu, há poucos anos, um maremoto que dizimou a vida nas costas da Indonésia e da Índia, matando milhares de pessoas inocentes, os epicuristas modernos – que são uma espécie de “mórmons ateístas” – não se cansaram de repetir a ladainha, e a verdade é que este tipo de argumento é muito prático, e por isso, incisivo em pessoas que não são dadas a contemplações.
As respostas a este argumento podem ser encontradas (entre outros) na filosofia hindu e em Santo Agostinho, e portanto, já têm pelo menos 1.700 anos – mas os “mórmons ateístas”, a cada geração, tentam sempre tirar partido da amnésia colectiva que se renova.
Os gurus hindus, de barba hirsuta, cabelo longo e desalinhado, seminus, praticam a não-violência sobre os animais de uma forma levada ao extremo, a ponto de evitarem calcar os insectos para não os matar. Os gurus reconhecem que a sua condição física e material se sobrepõe à dos insectos, mas nem por isso reconhecem o direito de os calcar, matando-os, assim, a cada passo que dão. Porém, os gurus sabem que nem sempre poderão cumprir a tarefa a que se comprometeram, porque a condição humana sujeita ao erro material pode levá-los, de uma forma inopinada, a calcar um formigueiro.
Em conformidade com esta ideia, os gurus hindus dizem que sendo o universo, material, a sua lógica de funcionamento não está isenta de imperfeições a nível ético, e por isso, um terramoto pode matar milhares de pessoas da mesma forma que um guru pode pisar, sem querer, um formigueiro – trata-se da simples manifestação visível da imperfeição material da condição do universo. Contudo, da mesma forma que a mente do guru zela para que estes fenómenos de destruição da vida animal não aconteçam de uma forma sistemática, a mente de Deus zela para que a imperfeição da matéria perturbe, o menos possível, o caminhar da humanidade pela vida material. Porém, os erros da matéria não podem ser totalmente evitados por Deus, porque a intromissão sistemática de Deus no decurso da vida material condicionaria o livre-arbítrio do Homem, e consequentemente, o aprendizado evolutivo da Humanidade. Por isso, dizem os gurus, é que o universo, inóspito e imperfeito, tem necessidade de um grande esforço – imposto por Deus – para se sintonizar cuidadosamente para a criação da vida, e que por vezes a destrói inopinadamente devido à sua natureza eticamente imperfeita.
Santo Agostinho, na sua contenda ideológica contra os maniqueístas, diz que “tudo aquilo que é, enquanto é, é Bem”. As próprias coisas corruptíveis são boas, porque se não fossem boas não poderiam perder a sua bondade ao corromperem-se. Por outro lado, o exemplo da corrupção, perante os homens, dá-lhes a noção e a visão da incorruptibilidade, e nesse sentido, a corrupção das coisas é também positiva.
À medida que as coisas corruptíveis se corrompem, estas perdem não só a sua bondade mas a sua realidade, o que significa que se perdessem a bondade mas continuassem a ser, chegariam a um ponto em que seriam privadas de toda a bondade e seriam, contudo, reais, e portanto, incorruptíveis – o que não acontece, porque incorruptível é o espírito de Deus. Assim, o mal absoluto é o nada absoluto, e o Ser e o Bem coincidem.
Neste sentido, segundo Santo Agostinho, as catástrofes naturais que ceifam vidas, sendo próprias da corruptibilidade das coisas materiais, são também positivas pela ideia que dão à humanidade da noção de corruptibilidade e de incorruptibilidade, e pelo facto de a vida humana, sendo corruptível, e por isso, passível de morte, não deixar por isso de ser Bem – e segundo os hindus, as catástrofes naturais demonstram a necessidade da mente, ou espírito, zelar, através da Vontade, pela neutralidade dos efeitos da imperfeição ética da matéria no curso da vida.



Se não houvesse catástrofes naturais, por exemplo, terramotos, o Homem nem se preocuparia em conhecer certas Leis da Natureza, designadamente aquelas que provocam os terramotos.
Cada “catástrofe” natural é um desafio para o Homem procurar “interpretar” a Vontade de Deus e as Leis da Natureza.
Por outro lado, quem sabe que a morte é inevitável para o ser Humano, sabe que a Vida (física) tem que ser equacionada com a morte e que, mais tarde ou mais cedo, a morte física ocorrerá.
O “problema” que se levanta é para os que ficam. Quem fica e vive, todos os dias, com as mortes dos outros, tem que equacionar o valor da sua vida “aqui” (na Terra) e qual o seu sentido, que não pode ser outro senão equacionar-se com a “vida” na eternidade, com a existência da “alma” e esta ser ou não imortal.
Por cada “morte” (física) dos outros, os que ficam passam por novas provas determinadas por aquelas “perdas”.
Significa isto que nos devemos “conformar” com tudo e encolher os ombros perante as catástrofes “naturais” (terramotos, por exemplo) ou as provocadas pelos seres humanos (guerras, por exemplo)? Ou com as “ditaduras” e “opressões” humanas?
Definitivamente Não! Todos devemos lutar pela Vida!
“A Verdade liberta”, dizia o Mestre.
Quem procura a Verdade, tudo o mais lhe vem por acréscimo.
Quem procura a Verdade tem uma postura endógena contraditória (por “natureza”) com qualquer forma de opressão ou de “injustiça”. Tem uma actuação de “fundo” libertadora.
Tudo isto para dizer que, quer as catástrofes “naturais” quer as provocadas pelos próprios homens, “obrigam” o Homem a interrogar-se e a procurar Deus e a sua Vontade, o seu Grande Plano da Existência, designadamente da existência humana.
Pois…só a Verdade liberta.
A meu ver, de facto é assim.
“Não tenham medo!”, como dizia o Santo Padre João Paulo II.
Usemos, pois, a nossa “liberdade” humana para combater qualquer tipo de “morte”, até à Eternidade!
Este é, a meu ver, o “desafio” da Vida na condição humana.
Comentário por Victor Rosa de Freitas — Quarta-feira, 23 Abril 2008 @ 12:40 am