perspectivas

Terça-feira, 22 de Abril de 2008

O argumento-chave dos epicuristas modernos

Arquivado como: Religare — O. Braga @ 6:14 pm
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Um dos argumentos ateístas mais utilizados para converter as massas é o argumento epicurista de que “se Deus é bom, porque permite o mal?” Por exemplo, quando aconteceu, há poucos anos, um maremoto que dizimou a vida nas costas da Indonésia e da Índia, matando milhares de pessoas inocentes, os epicuristas modernos – que são uma espécie de “mórmons ateístas” – não se cansaram de repetir a ladainha, e a verdade é que este tipo de argumento é muito prático, e por isso, incisivo em pessoas que não são dadas a contemplações.

As respostas a este argumento podem ser encontradas (entre outros) na filosofia hindu e em Santo Agostinho, e portanto, já têm pelo menos 1.700 anos – mas os “mórmons ateístas”, a cada geração, tentam sempre tirar partido da amnésia colectiva que se renova.

Os gurus hindus, de barba hirsuta, cabelo longo e desalinhado, seminus, praticam a não-violência sobre os animais de uma forma levada ao extremo, a ponto de evitarem calcar os insectos para não os matar. Os gurus reconhecem que a sua condição física e material se sobrepõe à dos insectos, mas nem por isso reconhecem o direito de os calcar, matando-os, assim, a cada passo que dão. Porém, os gurus sabem que nem sempre poderão cumprir a tarefa a que se comprometeram, porque a condição humana sujeita ao erro material pode levá-los, de uma forma inopinada, a calcar um formigueiro.

Em conformidade com esta ideia, os gurus hindus dizem que sendo o universo, material, a sua lógica de funcionamento não está isenta de imperfeições a nível ético, e por isso, um terramoto pode matar milhares de pessoas da mesma forma que um guru pode pisar, sem querer, um formigueiro – trata-se da simples manifestação visível da imperfeição material da condição do universo. Contudo, da mesma forma que a mente do guru zela para que estes fenómenos de destruição da vida animal não aconteçam de uma forma sistemática, a mente de Deus zela para que a imperfeição da matéria perturbe, o menos possível, o caminhar da humanidade pela vida material. Porém, os erros da matéria não podem ser totalmente evitados por Deus, porque a intromissão sistemática de Deus no decurso da vida material condicionaria o livre-arbítrio do Homem, e consequentemente, o aprendizado evolutivo da Humanidade. Por isso, dizem os gurus, é que o universo, inóspito e imperfeito, tem necessidade de um grande esforço – imposto por Deus – para se sintonizar cuidadosamente para a criação da vida, e que por vezes a destrói inopinadamente devido à sua natureza eticamente imperfeita.

Santo Agostinho, na sua contenda ideológica contra os maniqueístas, diz que “tudo aquilo que é, enquanto é, é Bem”. As próprias coisas corruptíveis são boas, porque se não fossem boas não poderiam perder a sua bondade ao corromperem-se. Por outro lado, o exemplo da corrupção, perante os homens, dá-lhes a noção e a visão da incorruptibilidade, e nesse sentido, a corrupção das coisas é também positiva.
À medida que as coisas corruptíveis se corrompem, estas perdem não só a sua bondade mas a sua realidade, o que significa que se perdessem a bondade mas continuassem a ser, chegariam a um ponto em que seriam privadas de toda a bondade e seriam, contudo, reais, e portanto, incorruptíveis – o que não acontece, porque incorruptível é o espírito de Deus. Assim, o mal absoluto é o nada absoluto, e o Ser e o Bem coincidem.

Neste sentido, segundo Santo Agostinho, as catástrofes naturais que ceifam vidas, sendo próprias da corruptibilidade das coisas materiais, são também positivas pela ideia que dão à humanidade da noção de corruptibilidade e de incorruptibilidade, e pelo facto de a vida humana, sendo corruptível, e por isso, passível de morte, não deixar por isso de ser Bem – e segundo os hindus, as catástrofes naturais demonstram a necessidade da mente, ou espírito, zelar, através da Vontade, pela neutralidade dos efeitos da imperfeição ética da matéria no curso da vida.

1 Comentário »

  1. Se não houvesse catástrofes naturais, por exemplo, terramotos, o Homem nem se preocuparia em conhecer certas Leis da Natureza, designadamente aquelas que provocam os terramotos.

    Cada “catástrofe” natural é um desafio para o Homem procurar “interpretar” a Vontade de Deus e as Leis da Natureza.

    Por outro lado, quem sabe que a morte é inevitável para o ser Humano, sabe que a Vida (física) tem que ser equacionada com a morte e que, mais tarde ou mais cedo, a morte física ocorrerá.

    O “problema” que se levanta é para os que ficam. Quem fica e vive, todos os dias, com as mortes dos outros, tem que equacionar o valor da sua vida “aqui” (na Terra) e qual o seu sentido, que não pode ser outro senão equacionar-se com a “vida” na eternidade, com a existência da “alma” e esta ser ou não imortal.

    Por cada “morte” (física) dos outros, os que ficam passam por novas provas determinadas por aquelas “perdas”.

    Significa isto que nos devemos “conformar” com tudo e encolher os ombros perante as catástrofes “naturais” (terramotos, por exemplo) ou as provocadas pelos seres humanos (guerras, por exemplo)? Ou com as “ditaduras” e “opressões” humanas?

    Definitivamente Não! Todos devemos lutar pela Vida!

    “A Verdade liberta”, dizia o Mestre.

    Quem procura a Verdade, tudo o mais lhe vem por acréscimo.

    Quem procura a Verdade tem uma postura endógena contraditória (por “natureza” ;) com qualquer forma de opressão ou de “injustiça”. Tem uma actuação de “fundo” libertadora.

    Tudo isto para dizer que, quer as catástrofes “naturais” quer as provocadas pelos próprios homens, “obrigam” o Homem a interrogar-se e a procurar Deus e a sua Vontade, o seu Grande Plano da Existência, designadamente da existência humana.

    Pois…só a Verdade liberta.

    A meu ver, de facto é assim.

    “Não tenham medo!”, como dizia o Santo Padre João Paulo II.

    Usemos, pois, a nossa “liberdade” humana para combater qualquer tipo de “morte”, até à Eternidade!

    Este é, a meu ver, o “desafio” da Vida na condição humana.

    Comentário por Victor Rosa de Freitas — Quarta-feira, 23 de Abril de 2008 @ 12:40 am

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