Segundo li algures, para além dos cerca de 500 mil desempregados registados em Portugal, existem 900 mil trabalhadores sem vínculo, isto é, “descartáveis a recibo verde”, e cerca de 100 mil trabalhadores que trabalham ilegalmente em Portugal. Se somarmos a estes os milhares de emigrantes portugueses que abandonam Espanha onde trabalhavam na construção civil em crise nesse país, o cenário é preocupante: estamos a falar de 1,5 milhões de pessoas num país com uma população activa de cerca de 4,5 milhões de seres humanos. Mais de metade dos jovens até aos 25 anos de idade, e das mulheres, não têm contrato de trabalho.
Neste cenário, pasme-se, o ministro do emprego disse recentemente que Portugal é um dos países europeus com maior rigidez laboral. Sempre existiu e existirá trabalho precário, mas quando este afecta 33% da população activa, podemos dizer que existe uma política deliberada e sistemática de desvalorização do trabalho: a política de José Sócrates.
Muita gente diz que estamos a voltar ao “antes do 25 de Abril”. Não é verdade. Antes do 25 de Abril, os portugueses ganhavam pouco, mas em termos gerais, existia uma ligação afectiva – que se traduzia em alguma consideração e respeito mútuo – entre o patrão e o empregado; eram raros os despedimentos, em parte devido a essa ligação afectiva.
Hoje, por razões ligadas a uma decadência cultural, degradação civilizacional e relativismo dos valores, essa ligação afectiva entre patrão e empregado praticamente não existe, e a precariedade é exactamente a descartabilidade do trabalhador levada ao seu extremo possível, a sua redução ao estatuto de besta-de-carga e de ser-sem-alma.
Estamos a caminhar a passos largos para uma situação muito pior do que a que existia no tempo de Marcelo Caetano; estamos a tentar nivelar Portugal pela China totalitária, isto é, nivela-se por baixo e pela desumanidade, e quando a pressão sobre os salários se fizer sentir fortemente – o que vai acontecer em breve de forma acentuada – estaremos todos sentados num barril de pólvora. Só falta a redução, por contenção continuada no tempo, dos salários para níveis próximos do terceiro-mundo para que a violência generalizada ecluda.



O pior é que os tios resolvem a violência com violência estatal, e a guerra entre polícias e ladrões já foi declarada.
E as empresas de trabalho temporário que devem à SS ? Mas os tios dizem que a SS é insustentável. Pudera, se há tanta chulice! Se todos pagassem não era preciso tirar aos velhos.
Mas os tios sabem isso tudo e mentem com os dentes todos.
Comentário por Henrique — Segunda-feira, 21 Abril 2008 @ 8:03 pm
“estamos a tentar nivelar Portugal pela China totalitária”
Pelo que eu conheço da China devemos estar a ir para pior…
Comentário por O Raio — Terça-feira, 22 Abril 2008 @ 4:58 pm
Peço desculpa por comentar neste post mas não o consegui fazer no post sobre o Tratado de Lisboa e a pena de morte.
É só para dizer que quem quiser ter uma ideia sobre o coup-d’étát que é o tratdo de lisboa, pode aprecia-lo numa versão consolidada em:
http://www.eu2007.pt/ue/vpt/presidencia_conselho/tratadolisboa.htm
Comentário por O Raio — Terça-feira, 22 Abril 2008 @ 5:36 pm