“Seria importante reflectir sobre a forma como Kant concebe a moral. Se à partida o excessivo formalismo parece ser impossível de pôr em prática, como se obedecer ao dever fosse algo que não oferece motivos e, sem motivos, porque devemos agir? Por outro lado pode surgir como uma possibilidade de pensar a moralidade tal como ela deveria ser, como sistema ideal.”
Existe melhor motivo para a acção moral do que a própria Razão? Kant defendeu a racionalidade na acção moral. Na “Crítica da Razão Prática”, Kant não considera a estética e o sentimento como tendo legitimidade para definir uma qualquer lei moral, porque tanto a estética (o gosto) como o sentimento são subjectivos, e portanto, não consentâneos com a racionalidade objectiva implícita na universalidade da moral.
“A motivação para pertence ao mundo material e animal e, como tal, não é moral a acção feita por um qualquer motivo humano.”
“Motivação” é diferente de “instinto”. O instinto é irracional, a motivação é racional. Um animal irracional não dispõe de motivação; antes dispõe de instinto. A acção instintiva não é “motivada racionalmente” (passo a redundância). Portanto, a motivação para a acção — qualquer que seja — é eminentemente humana e racional.
Sendo a motivação, racional, pode dizer-se a Razão, por si só, motiva o ser humano, e em consequência, é na acção motivada e racional do Homem que se delimita e se enquadra a Moral.
“Manifestar uma boa vontade, uma vontade absolutamente desligada dos interesses seria a forma da moralidade e a forma da acção correcta, de novo o mesmo problema que Kant até resolve dizendo que os homens não têm boa vontade mas deviam ter( poder-se-á ter algo que não se possui enquanto traço humano?)”
Podemos discutir se a ética deve ser teleológica (utilitarismo, por exemplo) ou deontológica (ética kantiana e aristotélica). A ética deontológica, segundo Kant, é pura Razão, na medida em que é a razão que motiva o ser humano, enquanto que a ética teleológica é permeável ao instinto humano.
Quando o ser humano não se sente motivado (a tal ausência de “boa-vontade”) pela razão, age irracionalmente, e não é pelo facto de o Homem agir irracionalmente que Kant deixa de ter razão.
“Valerá essa forma como padrão ou estará tão desligada da realidade humana, como um idealismo puro, consistente na forma mas independente da realidade e impraticável.”
Será a Razão “independente da realidade e impraticável”? Naturalmente que a essência do ser humano é dualista (instinto e razão). Contudo, o estabelecimento de normas racionais universais que pautem o comportamento humano em sociedade é sempre uma tentativa da Razão de se sobrepor ao instinto, e nesse sentido, podemos dizer que a Razão “se desliga” da realidade instintiva do Homem.


