Eis como Kant nos revelou o conceito de Big Bang, 300 anos antes Stephen Hawking:
1. “A matéria enche um espaço, não pela sua simples existência, mas em virtude de uma força motriz particular.”
2. “A matéria enche os seus espaços graças às forças repulsivas de todas as suas partes, isto é, graças a uma força de expansão que lhe é peculiar, a qual tem um grau determinado, e para além do qual se podem pensar, até ao infinito, graus mais pequenos ou maiores.”
Já vimos o conceito kantiano de que “a matéria é o que é móvel no espaço”. No teorema expresso no ponto 1., Kant percebeu que existe uma força motriz que é causa do movimento da matéria. E que força motriz é essa?
Se o movimento é a penetração (1) de uma matéria no espaço e numa determinada direcção, a resistência a esse movimento é causada pelo movimento de outras matérias (incluindo o espaço relativo) na direcção oposta.
Segundo o teorema do ponto 2., “a força de atracção é a força motriz pela qual uma matéria pode ser a causa de que outras se aproximem dela”, e “a força de repulsão é aquela pela qual uma matéria pode ser a causa de que outras se afastem dela”.
Portanto, uma matéria enche um espaço devido a uma força motriz repulsiva – que ocorre em todas as partes dessa matéria – que se opõe à invasão de outras matérias (em que se inclui o próprio espaço relativo, que tendo movimento próprio, é também matéria), isto é, essa força motriz é uma força de expansão. Temos pois que a matéria enche o seu espaço graças a uma “força de expansão que lhe é peculiar”.
Kant concluiu assim, em pleno século 18, que o universo se expande a uma velocidade constante:
“Para além de toda a força dada, deve poder conceber-se uma força (progressivamente) maior” até a um limite no qual essa força seria tal que “num tempo finito, se percorreria um espaço infinito (o que é impossível).” Uma força (progressivamente) inferior a toda a força motriz dada teria como consequência, num determinado tempo e “acrescentando-se indefinidamente a si mesma”, o facto de não produzir velocidade nenhuma, “o que significa ausência de força motriz”.
Contudo, Kant não coloca de parte a possibilidade de ocorrência de forças motrizes superiores e inferiores às que ocorrem em determinado espaço, dependendo do tipo espaço e de universo em que essas forças ocorrem e desde que operem velocidades constantes, quando ele diz que “se podem pensar até ao infinito graus mais pequenos ou maiores” dessas forças.
Para Kant, a elasticidade (ou força expansiva) da matéria é uma característica a priori da matéria porque não deriva de nenhuma outra propriedade da matéria, mas antes existe nela de uma forma originária. Ainda hoje, este conceito apodíctico (2) de elasticidade da matéria não é colocado em causa pela Física contemporânea.
Quando a Física Quântica nos diz hoje que a matéria existe para nós da forma como a percepcionamos – o que não significa, de todo, que a forma como a percepcionamos seja a sua essência, Kant chegou a esta mesma conclusão quando escreveu que o filósofo não dava razão nem ao matemático nem ao metafísico: se a matemática defende o princípio teórico de que a matéria é divisível até ao infinito, seria então de presumir que a soma das partes da matéria dividida até ao infinito dessem lugar ao Todo da matéria, o que é um contra-senso, porque o Total da matéria não pode ser composta, como sendo inteiramente acabada, por um número infinito – e, portanto, indefinido – de partes, isto é, a soma do total das partes da matéria divida até ao infinito não pode ser igual ao Todo acabado e inteiro da matéria.
O metafísico que defende a ideia de que “a matéria é uma coisa em si”, e exactamente pela mesma razão que o opõe ao matemático, Kant diz que “o espaço não é propriedade de uma coisa em si e, portanto, a matéria não é uma coisa em si, mas simples fenómeno dos nossos sentidos externos em geral, tal como o espaço é a sua forma essencial”.
Segundo Kant, “o espaço não é uma propriedade que em si é inerente a uma qualquer coisa fora dos nossos sentidos, mas apenas a forma subjectiva da nossa sensibilidade, sob a qual nos aparecem objectos dos sentidos externos que não conhecemos como em si constituídos – fenómeno este a que damos o nome de matéria”.
Tudo isto é espantoso, vindo de um homem que nasceu em 1724.
(Segue-se a base da moderna Teoria Geral da Gravidade, definida Kant)
1. “Penetração” entendida aqui no sentido de “compressão” do espaço material por parte da matéria em movimento, porque segundo Kant, uma matéria nunca pode ser penetrada por outra matéria, mas pode ser comprimida, hipoteticamente, até ao infinito. Adicionalmente, Kant definiu o conceito de “divisão física” (a separação das partes de uma matéria).
2. Apodíctica = arte de demonstrar a verdade de um princípio ou de uma realidade por meio de simples raciocínio, sem recurso a provas de facto.



Confesso minha ignorância em relação a Kant, mitigada pelo que vou lendo aqui. Fico curioso acerca da Apodíctica porque há anos que julgo possível demonstrar leis da Física apenas pelo raciocínio, e mostrei como exemplo que a lei da atracção newtoneana pode ser deduzida. Essa demonstração vem no meu livro «E Deus tornou-se visível».
Comentário por Henrique — Segunda-feira, 25 Fevereiro 2008 @ 10:28 pm