O apoio dos EUA à independência do Kosovo matou dois coelhos com uma só cajadada: minou o poder russo sobre as minorias étnicas e culturais nacionalistas que ainda existem na ex-URSS, e colocou em causa a estabilidade política da União Europeia, a curto/médio prazo.
Poderemos assistir ao nascimento de novos países na Europa e à derrocada política da União Europeia: a Bélgica flamenga pode separar-se da Bélgica da Valónia, o País Basco pode separar-se da Espanha, a Sardenha pode pedir a independência em relação a França, a Irlanda do Norte pode tornar-se independente do Reino Unido — isto só para falar em casos em que existem movimentos políticos separatistas. O apoio dos grandes países europeus à estratégia americana existe porque aqueles partem do princípio de que não têm telhados de vidro, isto é, os seus telhados são protegidos pelo poderio militar e económico (à direita) e porque a esquerda desses países está convencida de que a união política — de tipo “presentista”, que anule e faça esquecer a História — da UE fará com que esses movimentos separatistas se tornem redundantes. Duplo erro.
Se o Kosovo tem direito à independência? Em princípio, sim. E o País Basco também; e a Bélgica flamenga; e por aí afora. As pequenas nações não deixam de ser nações, pelo facto de serem pequenas.
- Porém, este caso abre um precedente perigoso, na medida em que se parte do princípio de que as correntes migratórias massivas — como foi o caso dos albaneses que “invadiram” o Kosovo sérvio durante os últimos 100 anos — podem ser usadas como pretexto para usurpação territorial. Qualquer dia, os arredores de Lisboa (Cova da Moura, etc.) pedem a independência.
- Por outro lado, os Kosovares não são kosovares; são albaneses. Não existe uma cultura kosovar, nem uma etnia kosovar maioritária, nem uma língua kosovar. O kosovar “tipo” é um albanês, tem uma cultura albanesa e fala a língua albanesa.
Por estas duas razões — por elas e pela batota política americana — penso que Portugal não deveria reconhecer a independência do Kosovo. Mais: deveria retirar de lá as tropas e enviá-las para sítios onde podem ser mais úteis (por exemplo, Timor).



La pregunta que nadie se hace….si la comunidad internacional NO ha sido capaz de garantizar la seguridad y la libertad de movimiento de los miles de K-Servios en Kosovo. ¿Lo hará el nuevo estado? ¿O esto es el inicio de una nueva diaspora?
Comentário por ricardo alvarez-maldonado — Terça-feira, 19 Fevereiro 2008 @ 5:21 pm
O motor do caos da ex-Juguslávia foram alguns países da UE com o apoio do Vaticano. Os EUA entraram tarde e a reboque.
Além de que os Estados Unidos de nenhuma forma estão interessados em minar a UE, antes pelo contrário, a UE, filha ou antes, neta do plano Marshall é uma peça fundamental da estratégia americana.
Quanto à independência do Kosovo em si, é absurda, é os imigrantes tomarem conta da terra para onde emigraram. É explosivo e é explosivo não só para a Europa. Se o regime cubano mudar, qualquer dia teremos uma Florida a querer separar-se dos Estados Unidos e a associar-se a Cuba…
Quanto a nós, a única vantagem que vejo é a de uma possível desagregação da Espanha…
Comentário por O Raio — Quinta-Feira, 21 Fevereiro 2008 @ 1:18 pm
@Raio:
Os evangelistas americanos e os “neoconas” não sabiam de nada?
Quando o Iraque quis adoptar o Euro nas transacções do petróleo, substituindo o dólar, o que fizeram os Estados Unidos? Invadiram. Quando Hugo Chavez ameaça mudar a divisa do petróleo do USD para o Euro,o que faz os Estados Unidos? São insultados, ameaçados de corte de fornecimento do petróleo venezuelano… e baixam a bola. A UE só não incomoda os EUA se o Euro estiver ao serviço da estratégia americana de financiamento do seu défice.
Comentário por Orlando — Sexta-feira, 22 Fevereiro 2008 @ 3:26 pm
[...] Kosovo (2) Arquivado como: Política — O. Braga @ 8:48 pm Tags: Kosovo Sobre o Kosovo, reitero o que escrevi em 19 de Fevereiro de 2008. [...]
Pingback por Kosovo (2) « perspectivas — Terça-feira, 7 Outubro 2008 @ 8:48 pm