perspectivas

Sexta-feira, 8 Fevereiro 2008

Vasco da Gama 3 – Itália 1

No rescaldo da recente derrota futebolística da nossa selecção, não fiquei tão triste quando me lembrei da abada histórica que as cidades-estado italianas levaram do nosso Vasco da Gama. Com a descoberta do caminho marítimo para a Índia, Vasco da Gama acabou com o monopólio do comércio com o oriente por parte de Veneza, Génova e Florença, e consequentemente, o Gama foi o grande responsável pelo fim do renascimento italiano. Não foram os espanhóis da contra-reforma e os franceses ávidos de lucros que acabaram com a Itália renascentista – estes foram apenas os verdugos de uma condenação anunciada; foram antes as contradições internas e a secagem das fontes de enorme rendimento a que as cidades italianas foram sujeitas por culpa do Vasco da Gama e de D. Manuel I. O que Vasco da Gama fez no seu tempo baixou significativamente o valor das especiarias no mercado europeu; equivaleria a que fizéssemos hoje as tampas de Coca-Cola em ouro (salva a hipérbole).

Existe uma teoria sociológica muito em voga, adoptada por uma classe de novos iluminados intelectuais que se manifestam constantemente nos me®dia, que defende a ideia de que a “pluralidade cultural” (= “permissividade cultural” ou “tolerância”) é motor de desenvolvimento social. Decorrente desta teoria redentora está o laxismo no controlo da imigração, a abertura ao “casamento” gay, a permissividade nos costumes e em relação a toda uma série de comportamentos heterodoxos, o anti-teísmo estatal institucionalizado que se manifesta, por exemplo, no aborto liberalizado e na perseguição religiosa sub-reptícia, e o relativismo ético elevado ao estatuto de instituição; a tudo isto, chamam os intelectuais de esquerda de “pluralidade cultural” e que estará na base do desenvolvimento de uma sociedade – e dão como exemplo recorrente o renascimento italiano.

O renascimento italiano foi de facto marcado por uma baderna geral, mas não foi a baderna que trouxe mais cultura. Em termos filosóficos, por exemplo, o renascimento italiano foi pobre. O que trouxe mais realizações culturais à Itália renascentista foi o dinheiro do comércio das especiarias do oriente, e foi o excesso de dinheiro em circulação que incentivou depois o laxismo dos costumes. A baderna geral foi uma consequência do desenvolvimento económico-social, e este foi uma consequência da riqueza fácil. A essência do renascimento italiano esteve nas fontes de rendimento que fizeram das cidades italianas uma oligarquia plutocrática monopolista a nível mundial; as cidades italianas protagonizaram uma globalização neoliberal à escala do seu tempo. Portanto, ao contrário do que dizem os intelectualóides do urinol bloquista, não é a “pluralidade cultural” que provoca o desenvolvimento social e cultural, mas a quantidade de dinheiro disponível e em circulação. Sem excesso de dinheiro em circulação, não há pluralidade cultural que per si desenvolva o que quer que seja.

O dinheiro fácil de que os italianos beneficiaram, e que esteve na origem do renascimento italiano, não teve semelhante consequência no Portugal dos descobrimentos, essencialmente porque a contra-reforma papal defendida e promovida pelo rei espanhol Carlos V, em princípio do século 16, apertou as malhas da Inquisição para evitar a repetição da baderna do renascimento italiano, e porque os Filipes acabaram com o Estado português em 1580.

O renascimento italiano foi um caso único no seu tempo porque o dinheiro em circulação era tanto e tão fácil que até os Papas se transformaram em meros líderes políticos, mandando a espiritualidade católica às malvas. Os intelectualóides de esquerda que dizem que a “pluralidade cultural é factor de desenvolvimento” ao mesmo tempo que estão contra a riqueza fácil que neoliberalismo global gera para alguns, pretendem simultaneamente o sol na eira e a chuva no nabal. Eu prefiro que o sol dê na eira quando chegar o tempo do sol, e que a chuva caia no nabal condicionada pelo tempo que a meteorologia prevê como sendo natural; isto é: o senso-comum popular aconselha a que sejamos sensatos; nem oito nem oitenta.

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