Quando Sousa Lara desancou em Saramago em pleno parlamento por casa do seu Cristo e da sua cruz pessoal, eu – que até sou da “direita cristã social-progressista” – arrepiei-me. Lembro-me de ter pensado: mas o que é que aquela infeliz criatura tem a ver com aquilo que Saramago publica ou deixa de publicar, a ponto de sugerir a proibição da venda do livro?
Depois do caso “Sousa Lara”, Saramago amuou – não só com Sousa Lara: com a direita, com a esquerda, com o centro, e com todos os portugueses. Saramago culpou todos os portugueses pela derrocada das suas convicções políticas ortodoxas, e emigrou para um país onde a ortodoxia das suas convicções políticas estava ainda mais longe da realidade. Saramago culpa Ad Eternum os portugueses pelo falhanço da sua utopia pessoal e pelas suas misérias idiossincráticas.
Há meia dúzia de meses atrás, Saramago defendeu publicamente a integração de Portugal em Espanha, na condição de província espanhola. Agora, lega o seu espólio pessoal a Espanha.
Toda a gente tem direito à livre opinião e à liberdade de escolha, mas Saramago lembra-me outro “português”: Baltazar Gracián, um judeu de Belmonte nascido em plena Era dos Filipes (1601), e que passou a viver em Espanha (onde morreu porque quis morrer longe) num tempo de iberismo de desgraça portuguesa, e que escreveu o seguinte aforismo no seu livro “A Arte da Prudência” – que na minha opinião se deveria chamar de “A Arte do Cinismo”:
“Conhecer os afortunados, para escolhê-los, e os desditados, para repudiá-los.”
O que José Saramago fez, tanto no caso da entrevista “iberista” à RTP como no caso da legação do seu espólio a Espanha, foi seguir a preceito este aforismo de Gracián: conheceu os afortunados de circunstância, escolheu-os, e aos desditados pela conjuntura, repudiou-os. Mas Gracián tem alguma (pouca) justificação para a sua transladação oportunista, porque nasceu já com o jugo espanhol e estigma de cidadão de segunda classe, em plena ocupação filipina. A recente postura de José Saramago, em contraponto, é inqualificável, e só pode ser justificável pela senilidade natural.
Se eu fosse ministro da cultura, faria exactamente o contrário do que Sousa Lara defendeu: faria tudo para que os livros de Saramago se tornassem acessíveis ao povo através de ajudas financeiras estatais na edição e impressão, mas mandaria colocar na contracapa de todas as suas obras subsidiadas pelo Estado, a seguinte frase:
“Este livro é da autoria de José Saramago, um português nascido no Ribatejo, que estudou em português, viveu em português, ganhou o Nobel da Literatura em português, e depois passou a viver em Espanha e a defender a alienação da cultura que o gerou.”
Para que conste e fique na História.





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Esse discurso quase faz sentido, não fosse o facto de, a acontecer “exactamente o contrário do que Sousa Lara defendeu”, talvez Saramago ainda vivesse em Portugal, ao lado de Portugueses, e naturalmente, deixasse o seu espólio pessoal cá…
Comentário por marco — Quarta-feira, 24 Dezembro 2008 @ 1:32 pm
Caro Marco: a acção de Sousa Lara não justifica a reacção de Saramago. O argumento segundo qual “as coisas seriam diferentes se fossem diferentes” (ou se a minha avó tivesse rodas era um autocarro) não cola.
Comentário por O. Braga — Quinta-feira, 22 Outubro 2009 @ 8:17 pm