perspectivas

Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Home Schooling

Arquivado como: Sociedade, politicamente correcto — O. Braga @ 11:49 am

Escrevia o Henrique que a escola é hoje um depósito em que os pais abandonam os filhos para ir trabalhar. Lembrei-me do Home Schooling (Ensino em Casa), que foi o método de aprendizagem escolar que teve a minha trisavó.

A minha trisavó foi uma das primeiras mulheres em Portugal que exerceu oficialmente (paga pelo Estado) a profissão de Professora Primária (no Alto Minho); estávamos em meados do século 19. Depois, a minha bisavó seguiu-lhe o exemplo, e a minha avó foi professora primária no Marco de Canavezes (Rio de Galinhas) e no Porto (Campanhã). O curioso é que durante o tempo do fim da monarquia e a primeira república, as aulas eram, muitas vezes, dadas nas casas de habitação dos professores, porque não existiam escolas do Estado em número suficiente para as necessidades. Assim, a casa onde viveu a minha avó no Marco de Canavezes era, ao mesmo tempo, a escola lá da localidade.
Os professores eram de tal modo estimados pelo povo, que a campa da minha bisavó (Rosa do Rosário Soares Leite) é considerada património da freguesia de Vilar de Andorinho (Vila Nova de Gaia), onde ela deu aulas durante toda a sua vida. Ainda hoje, a campa dela no cemitério de Vilar de Andorinho é cuidada pela Junta de Freguesia, e não faltam lá flores, mais de 100 anos depois da sua morte (a minha bisavó faleceu no princípio do século 20).
Entretanto, a tradição seguiu na família: a minha mãe foi professora primária (hoje reformada) durante mais de 40 anos, tenho duas irmãs que são professoras primárias, fui casado com uma professora primária, tenho um filho que é professor primário e trabalha no estrangeiro (ele nasceu na Alemanha e tem dupla nacionalidade), porque em Portugal estaria no desemprego, como acontece a 45 mil jovens professores.

Na Europa actual, ainda existem países que permitem por lei o Ensino em Casa (Home Schooling). A Bélgica é um deles. A França também permite o Home Schooling mediante algumas condições. Na Alemanha, o Home Schooling foi proibido por Hitler, e é a lei de Hitler (com algumas modificações) que ainda se encontra em vigor na Alemanha moderna. Em Portugal, o Home Schooling foi proibido por Salazar depois da Reforma do Ensino do Estado Novo, que teve como consequência a construção de milhares de escolas modulares (todas iguais, na sua planta) por esse país fora – escolas essas que Sócrates está a fechar agora “por falta de crianças” (esfarrapada desculpa!), ao mesmo tempo que abriu a caixa de Pandora que conduzirá ainda a um maior definhamento populacional com a aprovação da lei de liberalização do aborto.

Tudo isto para dizer que nem sempre o ensino foi o que é hoje. Naturalmente que no início do século 20 existiam mais analfabetos, mas hoje o analfabetismo é funcional. E depois, tal como o Estado Novo ensinou, a escola passou a ser uma fonte de doutrinação política: as crianças aprendem na escola o politicamente correcto, que muitas vezes é cientificamente errado.
Pior do que o preconceito positivo (aquele que está aberto à discussão), é o preconceito negativo, que se fecha ao contraditório e se transforma em tabu. É lamentável que o ensino oficial promova, muitas vezes, o preconceito negativo.

O Home Schooling permite que as crianças sejam ensinadas em sua casa, seja pelos seus pais, se para tal tiverem habilitações académicas reconhecidas, seja por um professor privado contratado para o efeito. Na Bélgica, existem casos de comunidades (bairros, prédios, comunidades religiosas, etc.) que contratam professores particulares para ensinarem as suas crianças – tudo isto independentemente do Estado. Os progenitores são obrigados a seguir os programas-padrão do ensino oficial (nada mais que isso). No fim do ano lectivo, as crianças fazem um exame nacional de avaliação. Durante o ano lectivo, o Home Schooling é controlado pelo Estado através da visita periódica de inspectores escolares a casa dos alunos.

O Home Schooling constitui uma ameaça para uma sociedade politicamente orientada pelas elites, como é a nossa, porque o Ensino em Casa permite aos pais das crianças a transmissão de uma visão filosófica da sociedade diferente daquela que a elite política pretende que seja a oficial e absorvida pelas massas.

O meu filho mais novo, que está em Bioquímica, ficou surpreendido quando lhe mostrei o meu livro de Trigonometria do 6º e 7º anos do Liceu (publicado em 1967, no tempo de Salazar). Segundo ele, muita matéria que eu estudei no antigo 6º ano (10º Ano), só se dá hoje na universidade. O ensino nivela por baixo; se existem alunos com menos capacidades que outros, o ensino actual adapta-se à pouca exigência, criando na prática, analfabetos funcionais ou licenciados só de nome.

O que os “democratas” como José Sócrates fazem, é seguir as orientações políticas que nos chegam de Estaline e de Hitler, em matéria de educação; a filosofia igualitária é semelhante. O igualitarismo actual leva a que se nivele por baixo, e é esse nivelamento igualitário que leva ao abandono escolar em massa – estima-se que 40% dos rapazes portugueses abandonem a escola antes de cumprirem o ensino obrigatório. Não existe uma avaliação psicológica de carreira profissional dos alunos, logo na escola primária, ou imediatamente a seguir à conclusão da escola primária.
O igualitarismo exige que todos sejam “doutores” licenciados, e criou-se uma cultura que valoriza exclusivamente os detentores de “alvarás de inteligência”, em vez de se valorizar a inteligência em si mesma, que como sabemos, é multiforme.

O Home Schooling seria uma forma que os pais encontrariam de fugir ao espartilho ideológico e ao igualitarismo aberrante que prevalece na nossa sociedade. Por outro lado, permitiria que comunidades (como as aldeias isoladas) pudessem ter o seu professor privado (pago pela comunidade, através de celebração de contrato, com ou sem o auxílio da Junta de Freguesia local) para os tais 20 alunos que se têm que deslocar muitas dezenas de quilómetros por dia para ir à escola primária mais próxima.

Eu fiz a escola primária no tempo de Salazar, numa aldeia remota de Moçambique (Malema), a 400 Km da cidade mais próxima (Nampula), com estradas de acesso de terra batida pelos Caterpillars. A minha turma tinha cerca de 11 alunos, e não acho que tenha sido uma desvantagem para mim. Em contraponto, Sócrates mandou fechar mais de 2000 escolas que Salazar mandou construir nas aldeias portuguesas, e hoje continuamos a ter turmas de 25 ou mais alunos. O ensino pouco evoluiu em Portugal, e até involuiu. No tempo de Salazar, existia um ensino técnico prestigiado – a Escola Comercial e a Escola Industrial, em alternativa ao Liceu. O igualitarismo politicamente correcto actual defende a licenciatura universitária ou, em alternativa, a criação de párias sociais que viverão a expensas de uma segurança social parasitária.

Falem a José Sócrates no Home Schooling e verão a sua reacção: “como a do diabo perante a cruz”.

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