perspectivas

Quarta-feira, 8 de Agosto de 2007

Rui Rio e os parolos do PSD

Arquivado como: Política — O. Braga @ 9:16 pm

Luís Filipe Menezes não tem hipóteses de ganhar as eleições internas no PSD, não só pelas manobras de bastidores por parte de Marques Mendes, mas também (e essencialmente) porque é um nortenho que gosta da sua terra e da sua gente. Mesmo que tivesse boas hipóteses internas de ser eleito, os me®dia (e a toda a Nomenclatura do Poder) instalados em Lisboa encarregavam-se de o “eliminar”; e como Menezes, aparentemente, não tem boas hipóteses internas de ser eleito líder do PSD, os me®dia limitam-se a tolerá-lo. Não interessa se o líder do PSD faz oposição ao governo; o que interessa é que seja um “parolo político”.

Naturalmente que Menezes também gosta do sul, até porque é sportinguista ferrenho desde sempre, mas não renega a sua região – ao contrário de Marques Mendes, cuja família é de Fafe, e nunca soube que tenha sequer visitado oficialmente a sua cidade de origem desde que é líder do PSD. Mesmo Francisco Sá Carneiro, sendo do Porto, tinha residência em Lisboa muito antes de se tornar Primeiro-Ministro. É essencial para o “parolo político” viver em Lisboa e fazer de conta que sempre lá viveu, tacitamente renegando a sua origem. O “parolo político” parece encarnar o espírito do judeu errante que muda de nomes à medida que vai atravessando a diáspora.

Os lisboetas têm razão quando dizem que estão a ser invadidos por parolos que sobressaem na política. O Sr. Pinto de Sousa vem de uma família da Beira Baixa que migrou para o Alto Douro, e depois foi parar a Lisboa, onde militou na JSD; hoje é Primeiro-ministro do Partido Socialista. Mas perdem a razão os lisboetas quando, inconscientemente, incentivam o centralismo em Portugal quando votam nos “parolos políticos” que arribam a Lisboa.

Todos os países têm a sua capital, mas em nenhum o fenómeno do “parolo político” existe como em Portugal – talvez exceptuando alguns países africanos. Mesmo em França, onde o centralismo republicano à volta de Paris é fortíssimo, o fenómeno do “parolo político” não assume os contornos aberrantes do caso português. Por exemplo, o Sr. Pinto de Sousa, quando visita oficialmente a sua região de origem, fá-lo com aquela mesma, exacta e assimilada benevolência complacente característica do lisboeta que visita a “província”, como se nunca lá estivesse estado; a encenação é perfeita. Ao “parolo político” é exigida, pela nomenclatura do poder lisboeta, uma verdadeira lobotomia cultural, um travestismo identitário.

No caso do PSD, Pinto Balsemão e Marcelo Rebelo de Sousa (este último vem também de uma família do norte, isto é, é um “parolo político” de segunda geração) nunca permitiriam a um outsider a liderança do PSD. E um outsider é sempre alguém que não renegue as suas origens, alguém que goste da sua terra e da sua gente, e que assume a sua pronúncia. Um insider político no PSD é sempre alguém que chega a Lisboa e faz de conta que não conhece a mãe. Faço justiça a Pacheco Pereira, que embora vivendo no sul, nunca esqueceu as suas origens, e talvez seja essa uma das razões porque foi sempre olhado de soslaio pela nomenclatura do poder lisboeta; acham-lhe imensa graça, mas sempre “ao largo”. No fundo, e segundo a nomenclatura do poder lisboeta, Pacheco Pereira nunca deixou o estatuto de “relapso”, que antecede o estatuto de “parolo político”, isto é, não passou à fase seguinte.

A nomenclatura do poder lisboeta é supra-partidária, está para além dos partidos políticos, e o estatuto do “parolo político” faz parte da ética política portuguesa, pertence ao património do senso-comum político, é uma lei portuguesa não escrita.

Da nomenclatura do poder lisboeta faz parte uma panóplia elitista, que inclui os dirigentes dos principais meios de comunicação social com ênfase para as televisões (com Pinto Balsemão à cabeça), o poder financeiro, alguns gurus políticos e culturais (Santana Lopes e os violinos de Chopin), outros tantos dinossauros políticos (como Mário Soares, porque Fidel está em Cuba), as lojas maçónicas, alguns destacados “parolos políticos” de segunda geração (como Marcelo Rebelo de Sousa), alguns proeminentes “parolos políticos” recentemente arribados (como é o caso António Vitorino, que é de origem minhota) e também dos “relapsos” – que são os candidatos a “parolos políticos”, mas que ainda não o são oficialmente; os “relapsos” estão ainda sob “vigilância” por parte da nomenclatura do poder lisboeta. O próprio Cavaco Silva foi um “relapso” (enquanto teve muitas saudades de Boliqueime) antes de ser oficialmente aceite pela nomenclatura do poder lisboeta como um “parolo político”.

Outro exemplo de um “relapso” é Rui Rio. Rui Rio anda a ser “vigiado” pela nomenclatura do poder lisboeta, e ele sabe bem disso. Ele sabe que corre sérios riscos de passar ao estatuto de “renegado”, em vez de fazer carreira como “parolo político”. A nomenclatura do poder lisboeta é implacável, e os exemplos dos renegados abundaram no seio do PPD. Um bom exemplo de um “renegado” pela nomenclatura do poder lisboeta, é Alberto João Jardim, que não seguiu o bom exemplo do “relapso” Mota Amaral que se transformou num bom “parolo político”, chegando mesmo a Presidente da Assembleia da República Lisboeta. A nomenclatura do poder lisboeta é generosa para com os “parolos políticos”; o importante é que façam de conta que nasceram em Lisboa.

Rui Rio esteve para apoiar um outro “relapso” nestas eleições internas no PSD: Aguiar Branco (do Porto). Felizmente, emendou a mão, apoiando agora o “parolo político” Marques Mendes, justificando-se com a necessidade de estabilidade do PSD – Rui Rio apoia agora o actual líder em defesa da estabilidade, quando há duas semanas se propôs apoiar o “relapso” Aguiar Branco contra o “parolo político” Marques Mendes. Muito bem andou Rui Rio em afrontar o “renegado” Luís Filipe Menezes; apesar das reticências da nomenclatura do poder lisboeta, muito provavelmente será admitido no clube. Só lhe falta a residência; um candidato a “parolo político” que se preze tem que ter umas “assoalhadas” em Lisboa.

1 Comentário »

  1. Impagável!

    Comentário por Henrique — Domingo, 26 de Agosto de 2007 @ 3:09 pm

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