Estive a ver um debate televisivo sobre a recente intenção de se estabelecerem quotas para os partidos políticos no acesso à informação da RTP, de acordo com a representatividade eleitoral de cada força política – representatividade resultante do método de escrutínio de Hondt; se o método de escrutínio fosse diferente, o projecto do ERC teria eventualmente que ser alterado para se lhe adaptar, no sentido de se protegerem dos “donos da democracia”.
No debate, em que esteve presente o professor universitário e conhecido nosso colega da blogosfera, Rogério Santos, apareceu uma senhora de seu nome Estrela Serrano, que deu a cara pelo projecto de quotas no acesso à informação da RTP.
A ditadura da maioria da maioria
Existirá, eventualmente, a tentação de ceder a este tipo de “arrumação” ideológica do serviço público de televisão, em benefício do anémico centrão político do País, tentando transformar a democracia numa ditadura da maioria dos 60% dos eleitores que votam. Dos 5 milhões que constituem a população activa (votantes), o Sócras foi eleito com 40% dos 60% dos eleitores, dada a abstenção de cerca de 40%, isto é, o Sócras está no poleiro com cerca 1,2 milhões de votos e o PSD é o segundo partido votado, com cerca de 810 mil votos (27% de 3 milhões de votantes que exerceram o seu direito de voto). A votação do PS e do PSD juntos não chega a metade da população activa portuguesa, e é a este bloco político bipartidário que pretende a senhora Serrano (e acólitos) conceder privilégios de partido único.
A democracia não deve ser uma ditadura da maioria, mas antes um reflexo do dinamismo político da sociedade; a maioria da população não se inibe de modificar a sua opinião política a qualquer momento da legislatura só porque uma maioria parlamentar foi eleita para quatro anos. Já dizia o poeta: “Não há machado que corte / a raíz ao pensamento” ….
O Simplex informativo
O projecto ERC é um “gerechtet Ersatz”do jornalismo de causas, é uma forma de encontrar um modelo institucionalizado que substitua o jornalismo de causas; no caso vertente, as causas jornalísticas passariam a ser definidas não pelos editores e jornalistas, mas por uma norma “caetanista” de auto-censura, ou melhor, de censura prévia transmutada em censura “a posteriori”. A diferença entre os dois métodos de censura está no grau de violência repressiva exercida sobre a liberdade de informação.
Não sou contra o jornalismo de causas se existirem muitas e diferentes causas de outros tantos jornalistas; o que me chateia solenemente é este modelo único de jornalismo de causas Simplex da senhora Serrano – naturalmente encomendado pelo Sócras e comandita.
A senhora Serrano
Espanta-me que se defendam estas limitações à liberdade de informar com tranquilidade e pesporrência, como o fez a senhora Serrano…sinal dos tempos: depois da senhora da DREN que demitiu Fernando Charrua por piada contra sua excelência o “engenheiro domingueiro”, aparece agora outra senhora a proteger o guru e os interesses PS (Política Standard) … Sempre me disseram que a mulher, quando inserida numa organização e detentora de alguns privilégios, é muito mais perigosa que o homem: não pensa, executa cegamente, e abana depois as “cadeiras” com o ar mais natural do mundo.
Quotas? Só no FCP!
Esta coisa das quotas, seja no que for, mexe comigo. Já existem quotas para mulheres no parlamento; com jeitinho, seguem-se as quotas dos homossexuais para a Assembleia Municipal, e depois, quiçá, quotas para os alentejanos (sem ofensa para estes) de Barrancos no acesso ao Campo Pequeno, quotas para os linces da Malcata, para a cegonha branca e para o pinheiro bravo; o que não convém são as quotas para o eucalipto, por causa do financiamento de alguns partidos políticos.
As quotas nunca resolvem o problema de eventual discriminação social, antes são uma panaceia que não ataca o problema de fundo; uma aspirina atenua uma dor de cabeça, mas não ataca a enxaqueca: a “doença”, se existe, permanece, e por vezes, há quem invente “doenças” colectivas para poder aplicar as suas posologias politicamente correctas.
.
Os políticos (ou “engenheiros sociais”, como está mais na moda dizer-se, um deles com o diploma passado a um domingo veraneante) pensam que a existência de quotas actua a longo prazo e a nível cultural, isto é, os “engenheiros políticos” estão convencidos que “a cultura é um conjunto de tradições” (Hayek) que se altera pela força do poder repressivo, podendo neste caso, a tradição ser quebrada por imposição legal e ao longo de gerações. No caso das quotas das mulheres para a AR, a verdade é que não existe uma tradição propriamente dita: as mulheres não participam mais na nossa política intragável porque não querem – e dou-lhes razão.
Mao Tsé Dong operou uma revolução cultural na China com dezenas de milhões de mortos, com uma repressão feroz, com pais contra filhos e filhos denunciando os pais, e o resultado foi o retorno a uma sociedade que evolui agora rapidamente para o capitalismo mais ortodoxo. Valeu a pena o sacrifício de tanta gente?
A URSS reprimiu ferozmente a religião cristã, fechou igrejas, perseguiu clérigos, e hoje vemos Putin, ex-agente do KGB, a assistir à missa no funeral de um ex-colega seu.
Não vejo em que a repressão cultural, e no caso, imposição de quotas de qualquer tipo, possa operar grandes transformações sociais sem sacrifícios humanos inqualificáveis; é sempre pela educação e pelo debate livre das ideias que as culturas dos povos evoluem (de outra forma, estagnam ou involuem), debate livre esse que o projecto da senhora Estrela Serrano pretende claramente condicionar.
O método socrático
No ensino, define-se o método socrático como sendo um processo pedagógico que leva, em primeiro lugar, o aluno ao conhecimento do erro, e só depois ao conhecimento e aquisição da verdade. O Sócras faz tudo ao contrário de Sócrates: primeiro, dá a verdade como garantida, e só depois assume o erro em jeito de pecado venial, com ares de virgem ofendida. Por isso é que não confundo o nome do Sócras com o do filósofo grego; estão nos antípodas um do outro.
É preciso parar o Sócras e esta política bafienta de um neomarxismo cultural de tipo sul-americano, em absurdo sincretismo com um neoliberalismo mais dogmático que o próprio dogma. O Sócras consegue o inimaginável: tentar conciliar as filosofias antropocêntricas do marxismo e do neoliberalismo. Antropocentrismo ao quadrado, seguindo um pensamento político redondo.
Para além de tudo isto, ditadura por ditadura, então que venha a do Salazar; ao menos, não enganava ninguém.









